Limpo, Branco como a Neve

Moro numa parte de Londres que, bem, não tem a melhor fama. Dizem que era muito, mas muito mesmo, pior há uma década atrás, mas mesmo agora parece um pouco… difícil. Não sinto nenhum risco específico aqui, mas também ouço conversa sobre gangues brigando, tensão inter-racial, crime. Já testemunhei algumas visitas da polícia na minha rua que tinham algo a ver com drogas, e de vez em quando tem brigas domésticas em áreas públicas… apesar da minha própria rua ser nova e moderna e limpa, personagens um pouco assustadoras passam por aí de tempo em tempo.

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Por causa dessa fama, tento ser esperta. Não saio caminhando a noite se não tiver um destino específico, e evito entrar no parque enorme da vizinhança se estiver sozinha. Nada mais que seguindo a lógica, e provavelmente essas práticas seriam apropriadas mesmo se morasse num bairro calmo com reputação nobre.

Bem, então, hoje nevou. Ao longo do dia enteiro, uma corrente consistente de flocos branquinhos vem caindo. Acumulamos pelo menos dez centímetros e é neve pura, sem gelo duro, toda molinha e gostosa para andar nela. É o dia de neve perfeito. E hoje é domingo, o que quer dizer que as crianças não tem aula, e poucos adultos estão no serviço. Passei a maioria da tarde sentada no meu sofá simplesmente encarando a janela, vendo a neve caindo num mundo de maravilhas do inverno. Árvores brancas, arbustos cobertos de algodão, camadas lisas cobrindo igualmente a grama e o estacionamento. É de tirar o fôlego.

IMAG0352Sabe como, quando neva, o mundo enteiro parece brilhar mais depois do pôr do sol? Foi assim hoje. Então quando chegou a escuridão hoje, não resisti. Decidi sair para passear. No início, pretendi ser responsável e evitar entrar no parque, apesar de imaginar como devia ser glorioso lá dentro. Então fiz a volta pela periferia do parque – e ao andar ouvi vozes lá dentro. Crianças, mocidade, adultos – todos com um tom alegre. Então decidi pisar pé para ver como era lá dentro. Encontrei uma dúzia de bonecos-de-neve, cachorros correndo por aí, jovens descendo os enormes murros de treinó, famílias passeando juntas. O parque estava completamente vivo. Tinha gente de todas as cores de pele, falando vários idiomas diversos, e todos estavam simplemente curtindo a vastidão enorme branca, interrompida somente por atos inocentes de prazer humano.

IMAG0347E não senti medo nenhum andar no parque a noite. A idéia de algo sinistro ocorrer numa noite de magia como esta era além daquilo que eu poderia imaginar. Toda a diversidade do bairro se uniu para comemorar a glória que Deus nos mostrou.

Pensei sobre como a Bíblia fala que nossos pecados serão brancos como a neve. Realmente, a neve tem poder para limpar, não é?

Peço desculpas por minha máquinda fotográfica fraquinha, mas mesmo assim queria compartilhar com vocês um pouquinhoa da glória do meu parque…!

I love snow angels! And what better symbol of the fresh purity we feel on a snow day than an angel...

Adoro anjos-de-neve! E não existe símbolo melhor que represente a pureza nova que sentimos num dia de neve do que um anjo…

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Choque cultural atravessa o oceano

No ano passado, antes de comemorarmos Ano Novo ou Natal, antes do auge da crise americana da dívida nacional, e antes das tempestades de neve e de chuva chegaram ao hemisfério norte, postei em Culturlaçadas meus votos. Durante as semanas de feriado, me desconectei da internet e passei um tempo tremendo com meus sobrinhos e outras pessoas amadas. Para fazer isso, viajei de Londres ao estado de Virginia, E.U.A.

Agora devo confessar que sou uma americana expatriada. Não gosto de admitir muito que sou americana pois morei fora do país durante a maioria da minha vida, então prefiro me considerar uma cidadã do céu (gostou?), mas a verdade continua sendo que meu passaporte tem aquela água na capa e imagens dos 50 estados nas páginas internas. Nasci naquele país, assim como os meus pais nasceram, e isso não vai jamais mudar. E confesso que existe muita coisa boa que vem com uma nacionalidade americana.

Mas, de certa maneira, acabo sentindo o pior choque cultural quando piso em solo americano. Existe mais choque cultural me aguardando num subúrbio da capital Washington, do que em Ouagadougo, El-Geneina, Pristina ou Dili. E essa viagem acabou sendo ocupada enteiramente com duas coisas: curtindo um tempo fabuloso com gente maravilhosa (muitas das quais tinham menos de 5 aninhos e eram maior gracinha), e piscando meus olhos repetidamente ao me lembrar que “é assim que se faz neste país”.

Tenho certeza de que este choque cultural esquisito na minha terra natal é exatamente por ser minha terra natal. Ao chegar nos EUA, sou tratada como uma local, começando com aquele momento surreal em que eu sigo a fila de cidadãos/residentes na imigração. E no momento em que abrir minha boca, um sotaque um pouco esquisito mas absolutamente americano é o que sai. Família vem me encontrar no aeroporto, tenho uma carteira de habilitação americana, etc etc. De repente, é como estivesse em casa. Mas não moro lá, e não estou acostumada com a maneira pela qual as coisas são feitas lá. Então, metade de mim está me dizendo que CHEGUEI EM CASA. E a minha outra metade está me dizendo que TUDO É ESQUISITO. E o choque cultural que surge é agudo mesmo.

Então, quais são alguns dos choques que me apanham nos Estados Unidos? Posso resumir o choque cultural desta última visita em 4 momentos:

  • Se pedir uma bebida, qualquer bebida, até água de torneira, vai ser servida com mais gelo do que líquido. Não sou muito fã de água super gelada, especialmente não em temporada de inverno ou no ar-condicionado (e uma dessas duas circunstâncias vai sempre ser a realidade da maioria de restaurantes americanos), então tenho que me forçar a lembrar de explicitamente pedir água sem gelo.
  • Sempre que comprar algo num supermercado, diferente do Reino Unido, é a balconista que põe a mercadoria nas sacolas. E o treinamento deles transmite uma mensagem clara: clientes não gostam que suas sacolas se rompem! Então, se a sacola estiver até um pouquinho pesadinho, põe em duas sacolas! Assim terá 4 alças de plástico ao invés de 2, e transferindo a sacola do carrinho até a mala do carro, e da garagem até a cozinha, tem mais probabilidade de não quebrar. A idéia de trazer as proprias sacolas, mais robustas, está começando a pegar nos EUA, mas o fenômeno ainda é novo lá. Depois de morar na Inglaterra, onde não tem como evitar placas pedindo que evitemos de usar mais plástico do que o absoluto necessário, para conservar o meio-ambiente, agora tenho uma reação forte contra plástico. Então tenho que lembrar de explicar minha preferência esquista contra-plástico, ainda pedindo desculpas, quando vendo a balconistas colocando minha comida em sacolas.
  • Target  é uma loja incrível. Adoro. Nenhuma viagem aos EUA é completa sem, pelo menos, uma visitinha a Target, onde compro meu estoque de produtos de higiene, vitaminas, camisetas básicas, roupa de cama, meias, e outros ítens básicos para a vida cotidiana. Os produtos são em conta, e são práticos, e o melhor é que encontro todas essas coisas básicas na mesma loja. Porém, Target é ENORME. Se não tomar cuidado, depois de três horas, é possível que tenha só terminado de escolher minhas meias e pijama, e sem sequer pisar pé no corredor do sabão. É esmagador, e quando vou lá, Preciso. Me. Concentrar.
  • Manias de regime. Atkins, West Palm Beach, Weight Watchers… esses nomes fazem parte do vocabulário do dia-a-dia nos Estados Unidos. Muitos desses regimes são bons e eficazes, mas quando atravesso o oceano, tenho que me lembrar do significado de cada um desses regimes, e qual dos meus conhecidos está não-comendo-o-quê. Aí tenho que estudar um pouco para descobrir o foco mais recente do discurso em volta da vida ‘saudável’. Este ano, foi o “Paleo” e óleo de abacate. E pode crer, isso tudo é bom, mas para alguém que esteve em Outro Lugar durante muitos meses, é muita informação ao qual me atualizar.

Enfim, agora que estou de volta em Londres, outro dia passei um Pret  na minha caminhada. Vi esta placa e entendi que estou, mesmo, de volta no Reino Unido, um país que não é meu mas no qual, depois de morar aqui por um tempo, tenho uma boa compreensão de como as coisas funcionam:

(a placa diz: “Regimes são tristes. Ao invés de fazer regime, curta comida boa, três vezes ao dia (Não demais, e não demenos).”)

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Lhes desejando um Natal cheio de Esperança

Neste próximo domingo, viajo para passar o feriadāo com meus sobrinhos (e os pais deles, e seus bisavós – infelizmente os avós nāo estarāo presentes). Estou tāo animada – me sinto tāo madurinha usando milhagem para poder visitar família no Natal. É assim que gente normal viaja. Meu histórico de viagem geralmente nāo é nada disso.

Tenho grandes esperanças por um Natal feliz, e quero desejar o mesmo aos meus amigos culturlaçantes: um Natal de felicidade e de esperança.

Ao escrever isso, me lembro desta temporada no ano passado. Foi meu primeiro Natal em Londres mas ainda nāo tinha casa para morar, apesar de ter amigos e família maravilhosos e dispostos a me hospedar o quanto que fosse preciso. Queria curtir meu primeiro Natal “morando” em algum lugar, mas estava me recuperando de muita estresse, e também um pouco de trauma. E estava no meio dos desafios de enfrentar o sistema burocrático inglês que cerca a questāo de moradia. Entāo acho que nāo curti tanto quanto talvez pudesse.

Mas temporadas de vida como isso acabam sendo também época de reflexāo, e uma coisa que realmente gostei do Natal de 2011 foi reviver muitos dos meis Natais Passados CulturLaçantes. Um desfile de pessoas, lugares e lembranças preciosas (e algumas nāo tāo precisas) me lembram da vida rica que tenho. Por favor, siga lendo:

  • 2001 (Síria, Brasil)
  • 2002 (Síria, Turquia)
  • 2003 (Líbano)
  • 2004 (Síria, Líbano)
  • 2005 (Reino Unido)
  • 2006 (nublagem de pós-graduaçāo)
  • 2007 (Reino Unido, Síria… já dá pra ver como a Síria é tāo importante na minha vida!)
  • 2008 (Reino Unido mas por pouco, Chipre)
  • 2009 (Malásia)
  • 2010 (Líbano, Reino Unido)
  • 2011 (Reino Unido)

E com isso, assim como faze ‘gente normal’ quando viaja, estou me despedindo de CulturLaçadas até o ano que vem!

Feliz Esperança, Feliz Ceia, Feliz Tempo com Gente Amada a você.

uma fotinho com a árvore de natal dos meus pais no ano passado

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Esperar e depois Desesperar

Desde que comecei minha jornada de esperança aluns meses atrás, tive motivo de questionar minha determinaçāo a ser esperançosa. Mais do que uma vez, comecei a esperar por algo pelo qual nāo havia me atrevido a esperar antes, isso porque surgiu uma oportunidade inesperada. E aí essa nova esperança foi esmagada com a oportunidade deixando de se realizar.

Por exemplo, fui chamada a entrevistar por um emprego fantástico que imaginava nem existia, aí nāo consegui o emprego. Quando fui informada sobre o emprego, nāo tinha esperança – sabia que vivemos num ambiente de trabalho competitivo. Quando me chamaram para a entrevista comecei a ter esperança e quando entrei na entrevista já estava louca de esperança. Aí me informaram que ofereceram o emprego a outra pessoa, e umas horas de lágrimas seguiram. E este é um exemplo só.

Pois é, isso já aconteceu algumas vezes nos últimos meses. Algumas dessas esperanças nāo muito íntimas, mais intimas do que saberia descrever na minha própria cabeça, muito menos num blog. Me deixam ponderando, por que é que devo ter esperança? Nāo seria melhor se optasse por nāo esperar por nada, assim me desconectando emocionalmente até chegar ao ponto que minha esperança se realizasse em algo concreto? Pular a esperança – ir de ignorante a confiante?

Mesmo ao escrever essas palavras, estou certa de que eu jamais farei isso. A esperança é a essência da humanidade. Mesmo se cada nova flor brotando com esperança se segue com uma tempestade de choros, é melhor curtir as flores e esconder da chuva do que seria viver no deserto para sempre, né? A nāo ser que seja um deserto lindíssimo como Wadi Rum, onde as pedras refletem lindas com cor…


É uma verdade profunda que se tornou banal.. na filosofia oriental se chama o yin e yang. Em música sāo os fortes e pianíssimos, os allegros e andantes. Na religiāo ocidental é céu e terra, paraíso e fogo. Banal? Talvez, mas como precisamos disso! Esperança: a fonte de muita dor. Esperança: a essência da nossa alegria.

Uma coisa que aprecio demais sobre o Líbano é sāo craques com essa coisa de esperar-despespar: tanta beleza dá o contexto por tanto tumulto

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essa versāo de flashmob achei legal…

Durante esta semana que passou, o mundo online nāo foi grande fonte de esperança para mim. Tem muita coisa triste acontecendo em todo canto. Tento prestar atençāo mas evitar o desespero.

Aí hoje, abri um email com um link a este vídeo:

Nāo é novidade – o vídeo já tem uns 6 meses – mas assim mesmo. Adorei como tem muitas imagens de criancinhas curtindo o espírito de música que nos foi repassada ao longo de séculos, de músicos profissionais se divertindo.

Em algum canto do mundo, até numa pequena vila em Catalônia próximo a Barcelona e a fronteira com a França, como esta cidadezinha de Sabadell (que palavra bacana, heim?), econtro uma vela brilhando uma luz de esperança e alegria.

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Qual a sua esperança durante esta temporada de Natal?

Alguns dias atrás, postei sobre a esperança simples e alegre que vejo ao caminhar pelas ruas de Londres durante esta temporada de Natal.

Bem, isso me levou a ponderar essa coisa de esperança, curiosa para saber quais as esperanças dos outros. Então numa tradição de verdadeira pesquisadora, postei essa pergunta no Facebook. Vários amigos tiveram a cortesia de responder, e fiquei tão encorajada com as esperanças deles – eles deram esperança a mim! Me deu vontade de repetir a pergunta a busca de mais respostas! E me deu vontade de orar e esperar com eles…

Alguns confessaram de uma maneira ou outra que tinham dificuldade em pensar em uma esperança que tinham. Fiquei com a impressão de que nós às vezes temos medo de ter esperança. Se não tivermos esperança não podemos ficar decepcionados quando não se realiza. Além disso, o Natal nos concede tantas frases banais repetidas, e ESPERANÇA é uma delas, que a gente para de até prestar atenção na maravilha da ESPERANÇA.

Mas outras pessoas tem esperança por coisas muito práticas, coisas que deu vontade de eu esperar com eles que se realize: um amigo novo, melhoras financeiras, tempo para descansar pois a vida ficou muito corrida, respostas às orações!

A esperança de outros foi muito espiritual, adorei a maneira como se expressaram! Para que o espírito santo encha pessoas amadas, Deus conosco, Jesus nos nossos corações… Pois é, eu quer ter essas esperanças também.

As esperanças de outros foram grandiosas, significativas. Algumas dessas esperanças pareciam ser até de desespero – coisas pelas quais ansiamos de verdade mas aos quais não exercemos controle nenhum: paz, paz especificamente na Síria (graças à minha mãe que espera junto comigo por isso!), sobrevivência…

Sim. Eu quero esperar por todas essas coisas e por mais. Esperança para mim é como uma arfada de ar – algo que precisamos, no qual dependemos, pelo qual ansiamos, ao qual nos grudamos…

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Esperança no Natal

Compras pro Natal… sem dúvida o movimento está aumentando. “Black Friday” (sexta-feira negra) e outros dias designados para aquele final de semana de promoçōes marcando o início da temporada já passaram. E esse ano creio que mais amigos no Brasil comentaram sobre o Black Friday do que amigos nos EUA. E olha que o dia de Açāo de Graças nāo é nem feriado no Brasil, mas as promoçōes e a loucura de compras que tradicionalmente segue o feriado foram adotados na boa.

Digamos que o Advento é uma temporada de ESPERANÇA, e caminhando as ruas de Londres, eu vejo bastante esperança:

Vejo colegiais com a esperança de manter o pique até começar as férias de Natal. Vejo māes com esperança de terminar de fazer as compras e outras tarefas antes de ter que voltar a casa preparar o jantar. Vejo vendedores de loja com esperança de que chegue logo a hora da loja fechar. Vejo jovens casais com a esperança de que curtem muito um dezembro comemorativo, e grandes profissionais com a esperança de que a festa de Natal do trabalho seja fantástica. Vejo avós com a esperança de que escolham o presente de natal pros netos que eles estāo mais querendo (e isso me lembra de um Natal feliz na minha infância em que minha avó me deu aquilo que eu mais queria – uma boneca “Cabbage Patch”. Eu era muito mais nova na época. Este ano nāo tenho esperança nenhuma de receber uma boneca dessas. Este ano estou com a esperança de ganhar uma torneira nova na cozinha; olha que perdi o romance da vida, heim?)

Apesar de essas esperanças me parecerem superficiais, estou vendo muitas famílias nas ruas, muita gente de geraçōes diferentes passando tempo juntos. O pessoal talvez nāo tenha uma aparência enteiramente de paz, mas vejo um fonte de alegria. Esperança frívola, talvez, seja nos une mesmo!

Visitando a Feira de Natal no Southbank de Londres com uma amiga!

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Bálsamo pros lábios, Seguranças, e como sei agora que preciso de uma boa dose de esperança

Uma vez a cada semana passo o dia trabalhando na Biblioteca Britânica, elaborando o lado mais literário da minha pesquisa. Acesso a uma grande biblioteca como esta, que providencia cada livro jamais publicado no idioma inglês, com internet gratuito e tomadas elétricas em cada mesa, sem limites de tempo para ficar… é um dos grandes privilégios que descobri em morar nessa cidade de Londres.

Um pequeno aborrecimento é que eles tem regras rígidas sobre o que pode ou nāo pode ser levado às salas de leitura. Nada de canetas, por exemplo, só lápis – parece que tiveram problemas com usuários da biblioteca escrevendo nos livros. Nada de malas, só pode carregar coisas nas sacolas de plástico providenciadas. Nada de jaquetas. E assim em diante.

Uma regra que nāo aparece nas placas mas que é claramente comunicada ao pessoal de segurança que verificam cautelosamente tudo que entra, e mais cautelosamente ainda tudo que sai (inclusive a parte interior de laptops, sei lá o motivo dessa precauçāo adicional)… é que cremes e pomadas nāo sāo permitidos. Entendo o raciocínio, mas se eles se preocuparem com a entrada de cremes na biblioteca, bem que podiam informar os usuários e nāo só os seguranças. Ainda mais perturbante é que, aparentemente, bálsamo pros lábios vale como creme ou pomada. Atualmente, dependo muito do meu bálsamo pros lábios, por motivos médicos, e nāo consigo ficar mais de meia hora sem passar um pouco. Entāo, pode crer que quando vou à biblioteca, garanto de levar meu bálsamo.

Ontem, passei cinco horas na biblioteca, com telefone, laptop, livros, bálsamo pros lábios, e tudo em ordem. Nada de canetas nem de malas nem de jaqueta. E, dez minutos antes que era para eu sair, o segurança da sala de leitura me aproximou (assim abandonando seu poste na entrada da sala) e me disse que nāo posso ter meu bálsamo pros lábios na bibliteca, e que ele teria que levar.

Minha reaçāo foi forte. O meu bálsamo pros lábios virou um espécie de conforto diário para mim, como se fosse um ursinho de pelúcia. A idéia de ser separada dessa graxa bucal me assusta, demais. Entāo briguei com ele. Disse que eu nāo sabia dessa regra. Disse que só tinha mais 10 minutos até partir. Mencionei o fato de ter chegado 5 horas mais cedo, e de vir semanalmente, sem ninguém nunca ter dito nada. Queria mencionar o fato de que podia esconder com facilidade o bálsamo no meu bolso, se soubesse que tinha motivo para esconder, mas me segurei.

Ele sugeriu que eu abandonasse meu computador e telefone para ir usar o bálsamo lá fora da sala de leitura. Isso nāo me parecia ser um bom conselho por parte de segurança.

Vendo a determinaçāo dele (e o barulho que fazíamos numa biblioteca), e já que só me faltavam 10 minutos mesmo, deixei ele levar com a promessa de devolver para mim na saída da biblioteca. Aí voltei ao texto extremamente teórico e filosófico e acadêmico sobre o uso de ficçāo como uma metodologia de pesquisa, e descobri que havia perdido minha capacidade de me concentrar em conteúdo difícil de entender mesmo quando me concentrando bem, mas agora nem vi direito as letras na página por causa das lágrimas.

Entāo o livro me escapou por enteiro. Juntei minhas coisas e parti. Ele devolveu o bálsamo, Eu lhe disse que ele era muito mal-educado e perguntei se ele nāo poderia ser pelo menos um pouco mais gentil? Ele tento explicar para mim o raciocínio da proibiçāo de cremes (o que eu repetidamente tentei constatar nāo ser igual a bálsamo pros labios). As regras até que faziam sentido para mim, tudo bem. Achei bobo mas entendi. O que nāo entendi era como ele podia confiscar, sem aviso prévio, algo que eu precisava por motivos médicos. Ele perguntou porque eu nāo havia pedido do gerente uma carta me dispensando, se foi por motivos médicos. Be, se eu soubesse…

As lágrimas aumentando e a raiva crescendo ao longo da conversa, foi um alívio quando uma senhora simpática, uma colega dele, entrou. Ela me passou uns lenços para aspirar o nariz e sugeriu que eu falasse com um gerente, oferecendo chamá-lo imediatamente (uma oferta que recusei pois agora eu já me atrasava). Ela pediu perdāo em nome do colega.

Depois, vim a entender que realmente, a culpa nāo foi dele. Foi lhe dado um conjunto de regras diferente das que eu recebi. Entāo do ponto de vista dele, eu estava sendo um rebelde e nada mais. Além disso, se ele veio direto falar comigo é porque alguém, uma bibliotecária talvez, havia me visto com o bálsamo mas havia sido tímida demais para me confrontar diretamente, entāo havia chamado o segurança para lidar com o problema que era eu.

Mesmo assim, a Bilioteca Britânica deve ser as mesmas regras para todos. Ou permite bálsamo pros lábios, ou esclareça bem que é proibido.

Entāo… o que tem tudo isso a ver com esperança? Indignada talvez eu tenha sido, e também justificada naquilo que fiz, mas mesmo assim, reagi mal.

E creio que isso foi porque algo no meu coraçāo tinha que ser soltado.

Talvez o fato de que ontem tenha sido um dia muit triste pela Síria, talvez o fato de que eu ainda esteja lutando para encontrar meu lugar nesta vida londrina, talvez um senso de que a minha miúdia luta pela justiça numa situaçāo de menor consequência seja simbôlico de o que deve ser meu senso de justiça nas coisas grandes.

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Açāo de Graças cheia de Esperança

Neste último final de semana, tive a oportunidade rara de inicar uma atividade Culturlaçante, introduzindo aos meus amigos uma tradiçāo cultural em forma de um evento na minha própria casa. Minha companheira de casa e eu convidamos amigos para participar de… uma festa de Açāo de Graças!

Creio que o Dia de Açāo de Graças é a parte da minha herança americana da qual tenho mais orgulho! Bem, isso e biscoitos de gotinha de chocolate.

Transformamos nosso pequeno apartamento numa fonte de gratidāo ao comermos pratos tradicionais americanos típicos deste feriado mas em forma de lanchinho (bolinha de batata doce, pasteis de vagem, pāo de bata doce em bolinho, torta tamanho “baby”, etcetera e tal), e curtimos a companhia um do outro.

Já que muitos haviam me perguntado sobre a história do Dia de Açāo de Graças, sobre o significado do feriado e o motivo pelo qual os americanos o comemoram e justamente no final de novembro, dei uma apresentaçāo de um vídeo em desenho, do Charlie Brown e Snoopy que conta a história tradicional que aprendi como criança, na qual os peregrinos atravessam o oceano a busca de liberdade religiosa mas quase nāo sobrevivem, só conseguindo graças à ajuda dos povos indígenos, uma história de cooperaçāo e gratidāo pela sobrevivência. Amo essa história e amo que usamos a história como uma lembrancinha de que devemos ser grato pelas coisas boas nas nossas vidas.

Além disso, cobrimos uma parede com cartolina e pedimos a cada visita que escrevesse pelo qual era grato. Adorei ver a parede se enchendo ao longo do dia, e o sentimento positivo que acompanhou o ato de escrever nossa gratidāo. Me disseram que essa coisa de escrever era mais apropriada na cultura inglesa do que aquilo que gostamos de fazer nos EUA: sentar e pedir que cada um fale ao grupo, geralmente antes de comer! Mas os ingleses nāo gostam de ter que pensar em uma coisa positiva de forma tāo pública – disseram que tirar a pressāo e deixar eles escrever à vontade sem ninguém olhando facilitou a honestidade e positividade. No total, umas 30 pessoas participaram e cada uma escreveu algo, entāo aqui vou anotar somente alguns dos que mais me fascinaram…

“O amor de Deus, até para ajudar inimigos se tornarem amigos”

“Muitos amigos lindos que apoiam um ao outro”

“Nāo é ser espertinho mas é que sou grato(a?) por todas as coisas que nāo posso dizer em voz alta”

“Amigos… Comida… Risadas… Sorrisos”

“Por amigos e familiares no mundo enteiro”

“O coraçāo de pai de Deus”

“Saúde”… aí outro disse: “Eu também!”

E eu? Digo que Eu Também a todos esses. E também sou grata por ter amigos tāo lindos com os quais pude comemorar meu feriado americano predileto.

Parece que chegou a hora de começar a pensar sobre Natal.

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Em Busca de Esperança em Londres

A cidade grande pode ser gozada. Existe tanto motivo de esperança mas eu nāo vejo. Sento no ônibus e olho as pessoas ao meu redor. Eles nāo me parecem estar esperançosos, mas nem desesperados. Eles só sentam e olham os livros que leêm, olham os telefones, olham pela janela. Eles evitam de olhar um a outro.

Vou ao supermercado e vejo pessoas se jogando nas suas compras pré-natalinas. Enchem carrinhos de dúzias de latas de coca ou de quilos e quilos de carne. Eles me parecem estar determinados e apressados. Eu provavelmente tenho essa mesma cara, pois supermercados me instigam a uma leve fobia de multidōes, entāo quero sair de lá o mais rápido possível!

Todos estāo com pressa, e parece que a maior esperança de cada um é de chegar no próximo destino com o mínimo de incômodo possível.

Aí, hoje, encontrei essa pinturo, com o título de “Esperança”, no Facebook:

“Esperança” pelo pintor Mohannad Hamawi

O menininho está olhado o sol na forma do país da Síria. E pensei, se esse menino tivesse nascido dez anos mais cedo, ele nāo teria tal esperança como tem hoje. Pois sua vida teria sido mais previsível. Ele estaria se preocupando sobre as coisas pequenas que ocupam a mente de menininhos: o bem-estar do gato da rua, ou se a māe dele ia deixar ele comer doces depois do jantar. Hoje ele pensa sobre se sua família vai sobreviver, sobre e existência futura do seu mundinho. A esperança dele é grande.

Existe, sem dúvida, muita esperança em Londres, e há muito pelo qual podemos ter esperança. Mas esquecemos com facilidade. Nossas esperanças sāo pequenas pois temos o privilégio de esperar pelas coisas pequenas. Podemos investir energia emocional em esperar que consigamos um assento no trêm na volta para casa depois do trabalho, e em esperar que iPhones entrem logo em promoçāo. É absolutamente legítimo ter tal esperança e eu também frequentemente curto ter esperança por coisas como essas.

Mas me acostumei a buscar a esperança do menininho da pintura, que estou tendo que me disciplinar para encontrar a esperança profunda e intensa na face da māo que atravessa o parque rapidamente, empurrando seu carrinho de bebê, tentando evitar a chuva que ameaça.

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