Trauma – quadrado

“Na época em que moramos em Homs, as crianças participavam de atividades artísticas na escola. Desenhavam árvores, pássaros, e imagens de outras crianças brincando. Agora, as crianças que conheço ainda gostam de desenhar, mas os desenhos são de armas, bombas e aeronaves de combate.”

Hoje, encontrei um vídeo no Huffington Post que era uma série de entrevistas com crianças na Síria. Uma menininha disse que o seu irmão começou a fazer o som de bombardeamento no sono: “BDUH BDUH BDUH!” Um menino na véspera da adolescência segurava seu novo brinquedo: uma coleção de invólucros de balas que cata ao passear pelo bairro, onde também gosta de olhar os cadáveres mais interessantes. Onde estão seus colegas de escola, pergunta a entrevistadora? Todos mortos. Neste vídeo, crianças falam sobre as cenas de guerra que vivenciaram como se estivessem fazendo um desenhinho a pedido da professora na escola: como se fosse completamente normal. Tudo bem que nem todas as crianças viram tudo isso, mas já é demais.

Então as famílias fogem. Assim que puderem, ou assim que ficar absolutamente impossível ficar em casa, mães arrumam as crianças, pagam tudo que tem a um traficante, e se encaminham a um país vizinho: Jordânia, ou talvez Iraque ou Líbano ou Turquia. Mas descobrem que escaparam a violência para enfrentar um novo trauma: uma viagem angustiante na qual não tem direitos nem proteção. O que será que acontece com essas mulheres e seus filhos na jornada? Aí, finalmente chegam. Estão seguros. Louvado seja Deus, gritam! Mas não tem casa, nem dinheiro, nem amigos, nem idéia de qual deverá ser o próximo passo, então essas mães se dedicam a trabalho duro e a certa medida de criatividade para que os filhos possam, ao mínimo, dormir em algum tipo de abrigo. Trauma acima de trauma acima de trauma.

Trauma quadrado. Ou será trauma cubado?

Já trabalhei em vários paises que lutam para se reconstruir depois de conflito, e a coisa que mais me esmaga o coração é o efeito de trauma. Pessoas sofrem depressão, psicose, esquizofrenia ou outras enfermidades (li hoje que muitos refugiados do Iraque sofrem de incontinência causada por trauma), mas elas tem que continuar com as vidas. Então buscam emprego, se apaixonam e casam, tem filhos. E fazem nada para tratar os danos psicológicos que sofreram.

Então cada outra pessoa que econtram é também afetada pela trauma daquela outra. Se você trabalhar com alguém que luta com doença psicológica, sabe que é complicado. E se quase todos os seus colegas de trabalho lutam com doença psicológica, não tem como alterar o ambiente enteiro. E crianças com pais que viram coisas que não pode nem falar, que vivenciaram coisas que queriam tanto poder esquecer… as vidas enteiras dessas crianças são influenciadas por isso. Em geral, parece que o trauma de guerra dura por umas duas gerações além da geração que viveu a guerra, até mesmo se a guerra tenha sido curta: por exemplo, o genocídio na Ruanda durou somente 4 meses, e aconteceu há duas décadas, mas o país continua na luta para se recuperar.

E então vejo o tecido enteiro da sociedade síria sendo redesenhado. Uma cultura nova, uma herança nova, um novo conjunto de sonhos vão surgir das cinzas de trauma… um país enteiro que recentemente só conhecia a paz agora sabe tudo a não ser paz. Tenho medo que esse tecido novo vai ser feio, e que sempre lamentaremos a perda do tecido lindo e protegido do passado.

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