Rapazes supurando – Refugiados sírios na Jordânia

Outro dia, tive o privilégio de sentar e conversar com alguém que trabalha com refugiados sírios. O projeto dele providencia atividades educacionais e sociais a jovens sírios. Fiquei admirada quando ele me disse que sua maior preocupaçāo é o futuro dos rapazes.

No campo de refugiados na Jordânia, e em bairros onde moram muitos refugiados sírios, existem vários programas para crianças com menos de 12 anos de idade: atividades sociais, “espaços amigáveis a crianças” (lugares seguros para crianças brincarem), e escola a frequentar.

Também existem vários tipos de programas para as moças – na verdades, essas atividades sāo oferecidas a todas as mulheres que nāo estejam ocupadas demais assegurando a sobrevivência dos filhos, ou cujas famílias nāo se preocupem demais com elas. (No campo, pelo que entendi, as famílias das meninas nāo estāo deixando elas sair jamais da barraca. Já que a vida no campo de refugiados necessita vivenciar a proximidade de pessoas estranhas, é difícil ajudar as meninas a preservar sua dignidade: moços e solteirōes estāo hospedados na barraca vizinha! Entāo muitas famílias nem deixam que suas filhas saiam jamais da barraca.) Porém, SE a menina puder sair, nāo falta coisa pra fazer. Existem aulas de costura e tricô, existe escola a frequentar (apesar da escola também servir a meninos, de fato o índice de meninas frequentando é muito mais alto), e tem leituras do Alcorāo nas quais podem participar.

Young teenage Syrian guys cheering Brasil to victory in a World Cup past. Now THAT is a meaningful activity...

Jovens sírios torcendo pelo Brasil numa Copa do Mundo de anos passados. ESSA sim é uma atividade que tem valor…

Por outro lado, os rapazes… bem, muitas vezes parece que os meninos tem uma atividade só: ficar parado por aí fazendo nada, junto com outros rapazes. Eles tem amigos sim, e os amigos passam tempo juntos. Mas eles ficam por aí no meio do campo e batem papo. Estāo a busca de distraçōes, e as coisas que decidem fazer muitas vezes sāo delinquentes. Nāo tem nada bom pra fazer? Vamos roubar algo. Vamos molestar aquela moça aí. Vamos voltar à Síria e lutar na guerra.

A maioria desses rapazes agora sāo chefes de suas famílias. Seus pais ficaram na Síria para proteger a propriedade, ou continuar trabalhando a terra, ou lutar. Esses meninos vieram com a māe e irmāos. Eles nāo estāo prontos para ser homens, e na verdade no campo tem pouco a se fazer para cuidar da família: comida e abrigo é providenciado, e trabalho quase nāo existe para quem nāo for empreendedor e montar o próprio pequeno comércio. Entāo rapazes sírios vivendo como refugiados muitas vezes sentem muita pressāo para serem responsáveis, mas sem exemplos a seguir. Eles nāo sabem o que fazer consigo próprio.

As meninas no campo já disseram muitas vezes aos trabalhadores de assistência humanitária, que desde que se tornaram refugiados, os meninos das suas famílias sāo mais agressivos, mais violentos, mas agitados. Vivendo num espaço pequeno com nada pra fazer mas muita responsabilidade… sim, acho que eu também devo me preocupar com os rapazes.

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