Ela fugiu, viu coisas terríveis, está sem nada pra fazer… mas tem alegria

Sentamos na sala espaçosa, mobiliada somente com os colchões que lhe foram doadas por igrejas na Europa, através de uma igreja local… e o aquecedor que a igreja recentemente deu a ela, graças a fundos bilaterais que, como é típico, foram processados mais devagar do que Deus processou o tempo – era de rir que ela finalmente tinha aquecedor na casa no final do inverno. Mas mesmo assim, ela tinha orgulho e prazer nele.

Ao ficar sabendo que eu morei na Síria, trocamos histórias sobre Damasco, onde morei, e Homs, de onde ela vem. Ela alistou quais partes de Damasco ela havia visitado e gostado. E eu contei sobre quais partes de Homs e as vilas ao redor que havia visto e como tinha curtido a visita.

Aí ela jogou as duas mãos no ar, soltou uma risadinha, e disse, “Rah.” O que quer dizer, “Saiu.” Tradução: o bairro dela foi bombardeada até sobrar nada, nada. Se foi. E literalmente não há nada à qual ela possa algum dia voltar.

Me sentindo desajeitada, queria mudar de assunto a algo mais leve, mas que assunto leve existe para uma mulher como ela, mãe de muitas filhas, todas tendo dificuldade dormindo a noite não por causa da trauma que sentem com aquilo que viram – o que é muito mais do que qualquer moça jamais deve ter que ver – mas porque estão entediadas morando nesta casa alugada na periferia de uma cidadezinha rural que contém nada a não ser quatro colchões, um aquecedor para a sala, e mais alguns ítens doados pela igreja. As meninas ficam acordadas a noite toda batendo papo ou assistindo bobagem na TV (televisões são ubíquos em casa alugadas árabes), aí dormem o dia todo.

Mais uma vez ela jogou as mãos pro ar e disse, “O que podemos fazer? As meninas estão sem o que fazer.” E ela pegou o bule de chá e começou a re-encher nossos copos. E ela riu quando dissemos que já havíamos tomado o suficiente, aí fez piadinha sobre como a hospitalidade árabe não deixa um copo só desse jeito, e que realmente não se pode tomar chá demais! E eu comentei que senti falta de chá sírio, e em resposta ela sorriu de orelha a orelha.

Ao tomar um golinho da copo minúscula de vidro, ponderei o sorriso dela que não sumia. Tudo bem que ela podia estar ignorando a realidade, ou tentando parecer forte por causa das filhas, mas ao meu parecer, o sorriso era genuino. Senti que esta é uma mulher forte, quase que impérvia aos pesadelos que ela havia vivenciado.

Aí ela virou para mim e perguntou, “Quando você morou na Síria, você jamais imaginou que isso pudesse acontecer?”

Respondi que não, nunca, de jeito nenhum.

Em seguida, a conversa se virou à questão de religião, e descobri que ela é uma muçulmana super-devota. Ela tem orgulho da religião. Ela nunca estudou depois do primeiro grau, mas o marido dela obteu uns livros de jurisprudência islâmica e ela se ocupa os lendo. Suas filhas também leêm. O islamismo dela não me interessa nem um pouco – me parece ser muito rígido e dirigido por regras e, bem, enfadonho.

Mas creio que existe um vínculo entre a fé no nosso coração e a alegria que se expressa na nossa face, então ao ouvir ela falando sobre o que acredita, estudeu a cara contente dela com curiosidade. Como conseguia ela continuar sorrindo? Como pode uma expressão tão depressiva do Islamismo lhe dar esperança? E pelo que poderia ela ter esperança? Mas, pelo menos pelo bem da filha dela, eu tinha apreciação pelos sorrisos e pelas brincadeiras Ao nos despedirmos, disse a ela e às filhas, com toda sinceridade, que foi uma oportunidade feliz para mim ter as conhecido.

p.s. Gosto de incluir fotos em todos os meus posts aqui em CulturLaçadas, mas estou faltando. Não teria sido apropriado, por exemplo, tirar uma foto dessa linda mulher e sua família, nem da casa delas. Então, os próximos posts sobre o meu tempo com sírios na Jordânia talvez sejam um pouco menos coloridos…

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