Amor – o preço de amor por família

Imagina que você está em casa. Acaba de jantar bem, a casa é aquecida e o seu lugar no sofá é bem quentinho, você está vestido de pijama confortável. Talvez tem filhos que estāo brincando na sala, ou talvez você esteja batendo papo com amigas. A vida é boa.

Agora, imagine sua família, seus parentes. Estāo aonde? Estāo em outro país, acampados no quarto de visitas de um parente quase desconhecido? Lutam para poder comprar combustível para aquecer a casa ou até pāo para comer? Eles acabam de fugir da casa de madrugada, pois bombas caíam perto demais de casa?

Esta semana, passei a tarde com uma amiga que realmente tem uma vida boa. Tem casa, comida sobrando, e dois filhos que sāo uma gracinha e sāo saudáveis e tem amiguinhos legais. Mas os pais, irmāos e irmās dela – toda a família com a exceçāo dela e do marido e filhos – estāo na Síria. Há dois meses, a família teve que fugir da casa e deixar tudo por trás – agora estāo refugiados na casa de um tio num bairro que – até agora – continua relativamente seguro. A família dela tem um lugar muito, mas muito mesmo, especial no meu coraçāo, mas para ela, sāo o sangue dela.

Me preocupo com eles. Quando visitei minha amiga, tive o privilégio de conectar o Skype no meu computador e ligar para a família dela em Damasco. Pela primeira vez em mais de um ano, ela viu os rostos das irmās. Juntas, vimos eles todos falando e lutando para se encaixarem todos no pequeno espaço do vídeo do computador. Juntas, vimos que eles continuam vivos. Completamente vivos.

E juntas vimos que estāo magros, muito magros. Me preocupo com eles pois combustível para aquecer a casa é além daquilo que eles podem financiar, porque deixaram todas as suas roupas quentinhas lá na casa da qual fugiram, e porque estāo magricelos e tenho medo que nāo estejam comendo.

Mas a irmā deles, a única da família que tem casa e comida e aquecimento… tento imaginar o coraçāo dela. O amor dela por eles transbordou ao implorar que virassem a câmera ao pai dela para que ela pudesse ver o rosto quieto dele por um minutinho só, ao agarrar a filhinha de 5 anos e mostrar, com orgulho, à avó como a menina cresceu. O amor dela transbordou ao chorar lágrimas de alegria em ver todos vivos, ao fazer piadinha de como estavam magros, ao levar o laptop alegre ao marido para que ele também pudesse cumprimentá-los. Mas o amor dela também transborda todo dia com preocupaçāo. Estāo seguros e longe de perigo? Estāo comendo? Há pouco que ela pode fazer além de se preocupar. Ela nāo tem palavras para orar.

Me senti tāo privilegiada em poder participar dessa ligaçāo no Skype. Ao entrar na vida da família deles, eu também sinto amor por eles, mas também me sinto inútil. O que posso fazer ao longo de fronteiras internacionais? Amor é sobre aquilo que fazemos, nāo só sentimos, mas existe pouco que podemos fazer além de orar e ligar o vídeo no Skype.

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