Sírios que me inspiram… um capítulo

Estou determinada a nāo deixar a Síria escapar de minha vista. Estou a mantendo na minha consciência e no meu coraçāo. Me apaixonei por essa terra e deixei um bom pedaço do meu coraçāo lá. Nāo confio naquilo que vejo nas reportagens sobre a Síria, mas agora temo que as coisas sejam piores, nāo melhor, do que aquilo que a mídia sugere. Fui aconselhada a suspeitar de que, quando meus amigos me dizem estar bem, devo presumir mentira.

Quando comecei essa série-zinha de blog sobre sírios que me inspiram, fiz uma listinha longa de pessoas que queria apresentar aqui. Fico voltando a essa lista, tentando me decidir sobre quem escrever por próximo, mas repasso todos os nomes da lista e nāo posso decidir. Nāo consigo decidir porque todos parecem ser importantes demais, cada um merece seu clímax. Dei a certos deles a honra de ser entre os primeiros, mas agora quero honrar o resto. Nāo quero que sejam somente nomes ou continhos jogados em CulturLaçadas a algum momento de 2012. Sāo grandes e especiais demais para isso.

Vou parar com isso, vou sim. Vai ser melhor falar deles a algum momento do que me deixar esquecer deles.

Mas aqui, hoje, quero reflectir naquilo que me captou na Síria, as coisas pelas quais me apaixonei. Por que é que o povo daquele país me inspira tanto? Acho, talvez, que nāo sejam as coisas que você pense inicialmente sobre a Síria, mas sāo certamente verdadeiras.

…Sorrisos, inocência, braços abertos. Quando imagino as pessoas que conheci na Síria, vejo sorrisos tímidos. Meninas da minha idade, seus irmāos, esposos e pais, me convidando para seus lares – sejam casas ou sejam o lar da coraçāo, uma conversa profunda durante um breve encontro na rua. Eles olham para mim, a estrangeira, com curiosidade genuína. Penso naquela vez que um homem me pediu a māo em casamento, por erro, pois ele nāo sabia que eu era estrangeira (e casamentos entre sírios sāo de vez em quando concordados em esquinas de rua). Vi a vergonha profunda que ele sentiu quando percebeu que tinha me envergonhado. Aquilo que ele disse para mim era, sim, ofensivo, mas a emoçāo da retracçāo mais do que compensou. E penso nas dúzias, e dúzias, das vezes que sentei para tomar um copo de chá com uma estudante, com uma troca das perguntas mais banais: de onde você é? você tem irmāos? qual é seu sonho pela sua vida? Em cada uma dessas conversas, senti que olhando nos olhos dela eu já vi o coraçāo. Eles nāo me contaram cada detalhe de suas vidas, mas elas me deixaram ver aquilo que estava no mais profundo, muitas vezes quando ainda quase nāo nos conhecemos.

…Comida. Confesso que gosto muito de comida. Adoro comer e adoro sabores e adoro cozinhar. Passei a infância no Brasil onde a comida é fantástica. Lá, eu posso comer aproximadamente a mesma coisa todo dia e nunca cansar, apesar de amar uma variedade na minha dieta. A comida era simplesmente tremenda. Bem, descobri que a alegria da culinária síria facilmente pode competir com a do Brasil; na verdade, o Brasil adotou bastante da cozinha síria. Em uma ironia linda, aprendi que na síria existe, por aproximadamente, um relacionamento inverso entre o conservadorismo e o talento na cozinha. As mulheres das famílias mais conservadoras eram os verdadeiros mestres das especiarias. Até certo extento, até diria que os maiores as dificuldades que enfrentaram a vida de uma família, o mais rico que seria o repertório de comidas daquela família. Claro que sei que isso nāo pode ser realmente verdade, mas às vezes parecia ser, e isso, certamente, me deu muito para considerar.

…Herança, cultura, história. Antes de ira para a Síria, sempre morei em países onde os monumentos históricos tinham 100-150 anos. Cursos de história na escola falavam dos últimos dois séculos. Como resultado, eu nāo sabia nada da história antes que fui para a Síria. Lá, eu morei numa casa que só tinha 100 anos, mas que foi construída numa fundaçāo que tinha uns 6000 anos. Visitei cidades e casas de adoraçāo que floresceram uns 2000 anos atrás, e agora estavam desusadas. Mas às vezes o povo construía nas ruínas, e às vezes as preservavam no deserto, lugares lindos e isolados. Essa história rica imbuiu tudo sobre a vida na Síria. Na Síria, ninguém (além das autoridades na imigraçāo) se importavam com meu passaporte. Eles queriam saber da etnicidade do meu pai, e do pai dele, e do pai dele e do pai dele… o mais longe que eu poderia revocar. Na Síria, parece que pessoas muitas vezes sabem mais da história antiga do que da história moderna. Embora a história moderna também seja boa, aprendi muito dos laços e raízes profundos que eles tem com a antiguidade.

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