Sírios que me inspiram – A Leila Verdadeira. Capítulo 9

Quando comecei a escrever o meu romance, muitas pessoas me perguntaram se a história era autobiográfica, se a personagem principal fosse de alguma maneira, eu, fictícia. Bem, ao me desenvolver como escritora, mais e mais creio que cada personagem que escrevemos, é de certo modo, autobiográfica. Cada uma reflecte um pouco de quem eu sou, ou quero ser, ou quero evitar de ser, e se aprofunda à base disso. Nāo entendo como um escritor pode criar uma personagem sem, pelo menos um pouquinho, se relacionar com aquela pessoa de uma forma profunda, embora minúscula. Entāo sim, imagino que o meu romance seja autobiográfico. Mas nāo, a personagem principal nāo é uma Kati síria. Bem, talvez um pouco, mas nāo.

Leila, a personagem principal de Sonhando na Medina, é levemente vinculada a uma velha amiga minha, cujo nome nāo é Leila. E nem é Amira, o que a chamarei aqui neste texto. Ela é, porém, de Dera’a, assim como Leila. A descriçāo de sua casa, e da sua família, em Parte 2, Tajreeba (Experiência), é quase precisamente uma descriçāo da casa onde Amira passou sua infância. Ela morou numa ruazinha cercada por familiares, e foi criada num lar muçulmano conservador.

Mas Amira nāo cursou literatura inglesa. O fato é que ela cursou algo bem mais fascinante: engenharia agricultural. Para falar a verdade, Amira vivia uma realidade muito mais realística e pragmática, do que a Leila. Ela era uma moça conservadora boa, de uma família conservadora boa, alguém que, se a encontrasse na rua, parecia com uma mulher muçulmana tradicional típica, mas, conhecendo ela na privacidade providenciada pelo prédio feminino da Medina, eu a vi como uma linda jovem ambiciosa. Neste sentido, ela é Leila.

Ela também tinha um namorado secreto, assim como Leila, e seu namorado secreto era, em personalidade, igual a Ahmed. Mas na minha humilde opiniāo, Ahmed é um lindāo, mas o namorado dela nāo era. Por alguns anos, segui o romancezinho secreto dela, e tomo um rumo parecido com aquele de Ahmed e Leila. Me lembro tāo bem daquelas conversas que tive com Amira, ou no quarto dela acompanhado por um copo de chá, ou no telhado do Prédio 14 (sim, moramos de verdade no 14!), nas quais ela explicou francamente para mim o que ela sonhava, e em seguida me informou daquilo que esperava da vida. Duas coisas muito diferentes. Nāo direi aqui como a história da Amira termina, pois é a história de Leila que continua no podcast. Vocês vāo descobrir logo-logo!

Amira nunca se deixou ficar muito íntima comigo ou com as outras garotas estrangeiras. Tinha muitas outras amigas, e uma família enorme que esperava sua volta para casa a cada final de semana. Acho que ela também tinha medo, assim como Leila, de romper com a tradiçāo. Mas diferente da Leila, o medo venceu dos seus interesses.

Mesmo assim, quando saí da Medina, ela ficou comigo. Ficou na minha consciência e no meu coraçāo, uma presença tāo forte que escrevi um romance sobre ela… Por que será isso? Realmente, ela era nada mais que uma menina quieta da vila. Mas por outro lado, ela tinha ambiçōes profissionais impressionantes de desenvolver inovaçōes na agricultura local, e ela também se atreveu a se apaixonar. Era educada e tímida, mas quando ela relaxou, vi que Amira era a irmā mais velha em uma família cheia de meninas, inspirando as outras a acreditar que podiam ir atrás dos próprios sonhos.

Síria está repleta de mulheres como Amira. Morando na Medina, tive o privilégio de conhecer muitas mulheres como ela. Embora as residentes da Medina amávamos morar lá, a maioria da gente fora das suas muralhas a temiam e tinha dó de quem era desesperado o suficiente para morar lá. Nāo entrava na Medina se nāo queria, de coraçāo, transformar o mundo, se nāo estivesse disposta a enfrentar uma cidade longe da família e o desprezo de muçulmanos conservadores em Damasco, pois esse era o preço de morar na Medina. Minhas amigas tinham um senso de valores que viam de dentro delas, que motivava nāo somente a elas, mas também às mulheres de suas famílias em casa.

Na Síria de hoje, sofrendo conflito e sofrimento e um futuro em pontos de interrogaçāo, comecei a orar por Amira e todas as amigas dela da Medina, que elas se inspirem na sua força interior e seu carácter, para influenciar suas famílias e comunidades para paz, desenvolvimento e optimismo. Essas três coisas que parecem estar faltando actualmente na Síria, mas sei que continuam presentes e oro para que prevalesçam.

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