Nāo sabia que eu morava na Terra Prometida!

Quando procurava um lugar para me instalar, em casa, mais exausta do que se imaginava ser possível após quase uma década durante a qual nāo morei em lugar nenhum por mais de 4 meses, escolhi Londres. Já morei antes no Reino Unido, tinha família no Reino Unido, Londres é um centro estratégico para pessoas na minha carreira, e Londres é uma boa base para viajar a qualquer outra parte do mundo. Eu já conhecia pessoas em Londres. E faz muito tempo, muito mesmo, desde que guerra ou desaster natural causou qualquer deslocamento de residentes da cidade. Me parecia um lugar de confiança.

Sou cidadāo dos EUA, e isso nāo me confere nenhum direito de imigraçāo especial no Reino Unido. Nāo podia simplesmente chegar e ficar, e nāo era somente uma questāo de me inscrever como residente em algum ponto burocrático. Eu precisava de alguém que me convidasse, e isso quis dizer que precisava de um emprego. Demorou um tempinho para decidir por quem trabalharia, e de arranjar algo com eles. Senti que foi um pequeno risco me compromentendo a um emprego que nāo sabia com certeza que queria, mas estava bem animada em ter o visto. Agora, estou contente pois o emprego está sendo bom também. Quando enviei o pedido de visto, precisei mandar também vários outros documentos por um sistema bem impessoal, mas acho provável que o meu passaporte americano tenha facilitado um pouco – afinal das contas, em que maneira uma americana seria uma ameaça ao Reino Unido – politicamente ou economicamente? Provavelmente nada diferente do que alguém que fosse daqui. Em resumo: nāo foi difícil: recebi o visto e agora moro no Reino Unido. Todo dia me sinto privilegiado por estar aqui, mas nāo me preocupo muito a respeito. Simplesmente agradeço a Deus e continuo com a vida.

A praia em Calais. Nāo é lindo e pacífico? Mas é para o outro lado desta água que os migrantes querem, tāo desesperadamente, ir… foto pela bela @esliann

Neste último final de semana, fui com uns amigos a Calais, França, uma linda cidade de beira-mar no litoral norte desse país que tem fama por ser romântico. Queijo, caffé au lait, céus azúis com grandes ondas do mar, e uma linda feira de legumes, foram entre as coisas que vimos lá. Mas nāo foi por isso que fomos. Fomos com a intençāo de aprender sobre as pessoas que estāo em Calais a caminho de outro lugar. Na maioria dos casos, este ‘outro lugar’ é o Reino Unido. Calais é só uma paradinha no caminho, nāo tem nada por eles lá.

Conheci umas dezenas de rapazes, todos eles me disseram que estāo querendo ir para Ingalterra. A maioria estāo dormindo nas próprias ruas, ou abaixo de viadutos ou folhagem, ou em barraquinhas, enquanto buscam uma maneira de atravessar os poucos quilômetros de água até a costa sul da Inglaterra. Quando os conheci, estavam comendo feito fomentos, comida quente providenciado por associaçōes locais. Um pratinho de comida, umas bananas e um potinho de iogurte, um pedaço de pāo e algo para beber foram tudo que receberam. Eles nāo tinham controle dos seus dietas e tinham que comer justo na hora que a associaçāo distribuía a comida. Durante o tempo que passamos com eles, estávamos escondidos debaixo de um pequeno toldo que fez pouco para nos proteger da chuva congelada que nos cercava à causa do vento do mar. Alguém trouxe umas doaçōes de comidas e esses homens foram à caixa esperançosos que encontrassem um casaco para o frio, ou algo que os protejesse desse friorāo.

Homens vivendo assim, investindo toda suas poupanças e a das famílias para alcançar o Reino Unido. Longas jornadas, riscos financeiros, riscos pessoais… tudo para chegar na Inglaterra.

E porque é que eles queriam alcançar o Reino Unido? Porque é o melhor país, me explicaram. Porque eles ouviram dizer que é um bom lugar para morar. Porque eles seriam tratados com pelo menos um pouco de respeito aqui e porque tinham um chance de conseguir um emprego razoável. Ou pelo menos foi isso que ouviram dizer. Porque tinham parentes e amigos no Reino Unido. Por muitos, foi porque já haviam morado na Inglaterra anteriormente. Ou seja, os motivos deles nāo eram tāo diferentes dos meus. Mas seus passaportes africanos, árabes ou asiáticos levantavam sobrancelhas, enquanto meu passaporte americano log levantava um carimbo de visto. Sua falta de conhecimento da língua inglesa lhes distanciou culturalmente, enquanto meu sotaque de americano leva a brincadeiras informais, como se entre amigos.

E isso me levou a pensar… como devo ser grata que moro aqui. Já estou grata, mas nāo devo esquecer de agradecer a Deus a cada dia. Esta é, por muitos, a terra prometida.

Também me levou a pensar que esses caras sabem o que é a esperança! Estāo dispostos a arriscar corpos e liberdades, fome e doença, frio gelado e uma existência desamparada, tudo para chegar à terra prometida. Ess esperança vale!

A continuar…

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