Mercado Municipal

Covent Garden, Lexington Market… cada cidade grande cosmopolitana e rica, tem: um lugar que era sujo e arrebatado, um mercado que vendia legumes, carne, flores, e toda outra espécie de prudutos frescos. Um lugar que agora é alternativo, artístico, chique e caro, e onde se acha comida muito, muito boa.

Eu tenho uma memória distante de ter passado pelo Mercado Municipal de Sāo Paulo quando era pequenininha, mas de nāo ter tido a coragem de entrar. Era enorme, escuro e húmido, com um cheiro podre. Nāo tinha atraçāo nenhuma para mim, sé mesmo por ser grande. E, claro, por ser um lugar onde tudo era muito barato. E, também, o edifício era velho, uma sombra de algo lindo do passado.

Bem, esta semana, fui ao Mercado Municipal Paulistando com uma amiga, e essa excursāo tirou qualquer dúvida que sobrava: Sāo Paulo agora é uma daquelas cidades grandes cosmopolitas e ricas. O local era lindo, recentemente pintado de forma que desse acento nas arcas de vitrais coloridos. As barracas lá dentro nāo eram mais carrinhos de madeira arrastadas para o espaço diariamente, mas agora sāo lojas de verdade, uma do ladinho da outra. Italiano era o tema mais comum, e também tinha muitos vendedores de doces e lanchinhos. Tinha uma seçāo de peixe e outra de carne, e também outra de árabe-à-la-chique.

Também achamos a padaria tradicional. Lá tomei um café-com-leite tradicional. Mas até isso me parecia ser mais elite, assim como o preço de tal café-com-leite.

A lembrançinha que comprei lá foi um tubo de favos de baunilha autênticos. Nāo o tipo de coisa que se encontrava no Mercado Municipal das minhas recordaçōes.

Enfim, elitizaçāo foi um tema grande da minha semana em Sāo Paulo. Onde antigamente comeria um grande prato de arroz e feijāo, agora recebia convites para comer sushi (o que também gosto muito!). O café de coador com leite esquentado no fogāo está sendo, aos poucos, derrotado por cappuccino e máquinas de espresso. Fui a Starbucks quatro vezes em uma semana, e todos os meus amigos agora usam sistemas GPS nos iPhones para navegar a cidade. Sāo Paulo, enfim, chegou ao terceiro mundo.

Infelizmente, os preços acompanharam bem essa transformaçāo, bem demais. Tenho vergonha em confessar o quanto que paguei por esses favos de baunilha – só digo que espero que sejam tāo bons quanto parecem ser! A maioria da comida de restaurante parece custar, na média, duas vezes o que me custaria em Londres pelo equivalente. Sim, preços o dobro do que sāo em Londres! Claro que as opçōes mais económicas ainda existem, mas estāo sendo marginalizadas, junto com as multidōes de pesas que nāo tem condiçōes de acompanhar esse desenvolvimento elite como se vê no Mercado Municipal. Esses sujeitos enfrentas três horas de viagem para chegar ao trabalho a cada dia, e salários que mal pagam os custos de transporte, muito menos os custos de vida. Eles viajam no mesmo metro sobrecarregado e no mesmo trânsito horrível que a classe média e média-alta, a que recentemente se apaixonou por Starbucks.

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