interrompemos os nossos protestos por um vídeo youtube

Alguns dias atrás, vi esse tweet de @LeShaque:

“In Douma, Syrian protested the movie for 30 secs before switching back to revolution mode | http://bit.ly/U28NP3 #Syria

“Em Douma, sírios protestaram contra o filme durante 30 segundos antes de voltar ao ritmo da revoluçāo | http://bit.ly/U28NP3 #Syria

E apesar de que fui horrorizada em ouvir da morte de Chris Stevens, o embaixador americano na Líbia, e senti que o assassinato de um dignitário assim com certeza foi algo além dos limites daquilo que seria aceitável, mesmo até entre as emoçōes fortes sentidas ao longo do mundo árabe, foi só com esse tweet que fui inspirada a buscar o vídeo que causou tanta raiva contra o Ocidente, e querer entender a história do vídeo.

Em Cartum, Sudāo, onde eu morei, todas as embaixadas estāo fechadas e a embaixada alemā foi atacada. Ouvi de amigos em paises como a Jordânia e o Egito que estāo pedindo –  implorando – que todos os americanos fiquem em casa, por medo de ataques. Mas a idéia de protestos contra o Cristianismo Americano Malvado sendo algo que unisse as facçōes e desse uma parada à violência na minha amada Síria, até se por só 30 segundos… bem, achei que esse vídeo deveria mesmo ser algo impressionante!

De jeito nenhum.

Eis um link se você tiver interesse. Eu JAMAIS o inluiria neste blog – nāo gostei do vídeo e acho que nem vale o espaço que usaria. Compartilho o link aqui só para sua conveniência.

Estāo dizendo muitas coisas diferentes sobre o vídeo, entāo é difícil distinguir entre verdade e ficçāo. Este vídeo de 14 minutes é mesmo só um trailer de um filme de maior duraçāo? Os atores foram enganados para assegurar sua participaçāo? E esse tal de produtor, existe mesmo, ou foi inventado por outros? Qual é sua religiāo e sua nacionalidade, e será que isso importa? E… será que tudo isso é por causa de um vídeo de youtube?! Estou confusa mas confesso que tou nem aí… nada disso importa tanto quanto querer entender como isso foi causa de tanta destruçāo e morte.

Entāo, ao invés de tentar entender o vídeo por si, quero falar aqui brevemente sobre duas coisas que ficaram claras para mim depois dos eventos desta semana:

1- Muçulmanos árabes estāo se sentindo intimidados e negligenciados. Acho que eles devem estar sentindo algo tipo o que o “nerd” da escola sente depois de sofrer centenas, milhares de dias de abuso pelo mandāo, o cara forte da escola. Esse abusador seria os cristāos ocidentais. Tente se imaginar no lugar daquele moleque no seu colégio que sempre sofreu insultos e abuso, e provavelmente você captou as emoçōes que causaram uma reaçāo tāo forte contra um vídeo como esse. É uma reaçāo de auto-defesa. Exagero de reaçāo? Sem dúvida, mas exagero é de se esperar se for resultado de humiliaçāo contínuo.

2- Existe muita frustraçāo na outonada da Primavera Árabe. Há 18 meses, o mundo enteiro estava animadíssimo sobre o que ocorria… finalmente pessoas estavam se declarando, defendendo aquilo que acreditavam e tombando ditaduras. Revoluçōes estavam derrubando ditadores… pacificamente! Isso foi fantástico e incrível. Ao nos aproximarmos do 2o aniversário da Primavera Árabe, o Oriente Médio ainda nāo se transformou magicamente em utópia. Nós por fora, assistimos, ficamos um pouco decepcionados em ver que o Oriente Médio ainda nāo se transformou naquilo que sabemos que poderíamos ser. Mas acho que meus amigos egípcios, tunisianos e sírios devem estar bem bem mais frustrados – eles tiveram um gostinho de que as coisas melhorassem, e esperavam que ficassem MUITO melhor. Talvez, por algumas pessoas, melhoraram um pouco, mas deve ser tāo frustrante querer tanto mas alcançar tāo pouco.

Ou seja, este ano foi muito, muito MUITO frustrante.

Estudantes sírios demonstrando em prol do Brasil na Copa do Mundo de 2002. Prefiro este tipo de manifesto.

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