Como cheguei a pensar tanto sobre ESPERANÇA

Estavamos nos encostando no balcão da cozinha, tomando nossas tacinhas de vinho tinto e comendo mordidinhas de chocolates chiques, falando dos nossos amados. É assim que amigas boas fazem, não é?

Perguntei se tinha novidades das primas delas. Conheço suas primas desde que todas nós moramos juntas nos anos universitários. Seus olhos começaram a brilhar e seus pés começaram a dançar no chão enquanto seus cotovelos empurravam mais forte na superfície do balcão. Ela disse que duas das primas, moças na faixa dos 20 e poucos anos, que eram entre suas melhores amigas no mundo, ficaram noivas. Essa não era uma boa notícia. Ela estava furiosa pois as duas se noivaram com homens que tinham o dobro da idade delas, e eles são nacionais de um país que você e eu provavelmente jamais quiséssemos morar.

Aí minha amiga explicou: “Mas antes que eu pudesse dizer a ela que achei essa uma idéia terrível, ela me disse que eu não tinha direito de falar o que pensava. ‘Entre me casar com  um homem que não amo e entre a morte’, disse: ‘Prefiro viver. E nem pense em me julgar por isso.’ O que posso dizer, então? Ele é uma saída para ela da Síria. Quando eu ligo para eles no telefone, ouço as bombas caíndo à beira da casa deles, dá pra ouvir homens gritando na rua. Outra prima já teve que fugir da casa, junto com o marido e o nené, pois a cidadezinha deles virou uma absoluta zona de guerra. Posseiros já ocuparam a casa de sítio que eles tem então eles não podem mais ir pra lá apesar de ser mais seguro, e além do quê, eles não querem deixar a casa na cidade pois, se a abandonarem, eles vão perder absolutamente tudo.”

O meu coração se quebrantou quando ela disse isso. Quer dizer, meu coração já estava se desmoronando há tempo – tenho tantos amigos na Síria cujas histórias não são muito diferentes dessa não. Agradeço a Deus a cada dia que nenhum dos meus amigos mais íntimos faleceu até hoje, mas a morte já anda se aproximando.

Apesar do meu coração estar se quebrantando, tentei pensar em algo simpático a dizer. Acho que perguntei sobre a possibilidade de fugir ao país vizinho que agora é mais calmo, o Líbano, e sobre a chance de que as duas primas chegassem a aprender a amar seus futuros maridos, apesar de serem idosos, e sobre se a caçula da família ainda tinha condições de frequentar o colégio. Aí comecei a procurar um lado positivo, imaginando que a violência se acalmasse, que suas primas tinham agora esperança de ficarem seguras, e amanhã seria um dia novo.

Com isso, ela explodiu. Na cultura árabe, aprendemos a expressar a profundidade de nossas emoções através do volume das nossas vozes. Então ela não me ofendeu por gritar. Mas fiquei ofendida com aquilo que ela disse: “Você não pode saber! Como pode até começar a se importar? Eles não são família de você! Tudo bem que você tem uma amiga que quer ajudar, coisa simpática, mas sua família de verdade está segura. Estamos falando sobre minha família. E a situação toda é uma [acho que usou uns palavrões]. Não existe um lado positivo, não tem nada de bom, nada.”

Fiquei ofendida pois o meu coração estava em pedaços sim. Porque já soltei muitas lágrimas pela Síria. E porque ela tinha absoluta razão. Me importo sim, mas é um privilégio enorme tomar a decisão de me importar, um luxo ter a escolha. E mesmo assim acho que devo me investir mais. E, realmente, não vejo nada de positivo na situação, mesmo procurando.

Mas ao conversarmos um pouco mais, cheguei a entender algo e então disse: “Tudo bem. Você tem razão. A situação é terrível, não existem nem palavras, e você tem razão que eles são sua família e não minha então não posso entender. Mas mesmo assim, eu preciso ter esperança. Não posso viver com a possibilidade de que essa é a história toda. Talvez as coisas não melhorem, mas preciso saber que podem melhorar. Não posso dormir a noite sem algum pensamento esperançoso, senão entro no desespero.”

Depois disso, mudamos de assunto, pois ela se confessou ser uma realista que prefere falar só daquilo que sabemos, enquanto eu me descobri uma idealista que depende muito na esperança.

Esta entrada foi publicada em esperança, Sirios que me inspiram, Sonhos na Medina. Adicione o link permanente aos seus favoritos.