A razāo pela qual quero ouvir as histórias dos perpetradores

“Na melhor, absoluto melhor, das hipóteses, quanto tempo você acha que vai demorar para que o seu país volte ao normal?” Assim questionou um inglês a uma síria, enquanto tomamos vinho e comemos linda comida vegetariana.

Minha amiga da Síria se encostou na cadeira, tomou outro golinho, fechou um pouquinho os olhos, e pensou durante um minuto antes de responder: “Dez anos.”

Dez anos? Isso nāo é nada otimista!

Continuou dizendo: “Mesmo se a violência terminar amanhā, a reconstruçāo precisa é enorme. Vizinhos que eram amigos agora nāo se falam mais, pessoas se sentem muito magoadas, tantas famílias perderam membros queridos. Isso vai demorar, e muito.”

E logo percebi que ela estava absolutamente coberta de razāo. No meu trabalho em construçāo da paz no mundo enteiro, esta é uma história que já ouvi muito. Demora muito tempo, mas muito tempo mesmo, para se recuperar de violência. Uma geraçāo ou duas, ou até talvez três, sofrerāo os resultados da luta. É por isso que nós que estudamos este tal de ‘paz’ insistimos em sempre nos lembrar de Rwanda. Quatro meses de violência horrível completamente dedifiniram o DNA daquela naçāo. Faz quase duas décadas desde aqueles eventos, e o país continua em recuperaçāo. A guerra civil do Líbano terminou, oficialmente, em 1991, mas nós que já moramos lá sabemos que a paz continua longe daquela terra bela.

Tenho paixāo por histórias. Amo ler histórias, contar histórias, ouvir histórias. E creio profundamente no poder de histórias para transformar, para edificar ou danificar, mas certamente prefiro usar histórias para edificar. Entāo comecei a pensar sobre quais histórias pudessem acelerar o progresso nessa caminhada longa e dolorosa que tem pela frente na Síria.

E pensei nos perpetradores. Especificamente, pensei no fato de que quando eu morei na Síria há poucos anos atrás, todos que conheci eram amigáveis, hospitaleiros, e gentis. Violência quase nem fazia parte do vocabulário deles, ou pelo menos foi essa a impressāo que nós de fora tivemos. Dou uma piscada dos olhos e uma mexida da cabeça a cada vez que lembro que aquelas mesmas māos que seguram as armas do Exército Sírio Livre, saqueando vilas e tomando posse de monumentos históricos, sāo as māos que apertei depois de chegar a um acordo de compra no souq, ou sāo māos que chamaram o meu ônibus a busca de carona. Aí, penso nos milhares de jovens que foram recrutados ao serviço militar. Adolescentes que brincavam com telefones celulares e sentavam em muralhas dando risadinha ao ver as meninas passando, que sabiam que teriam que fazer seus 2 anos requisitos de serviço militar mas acharam que seria questāo de acabar logo com esse dever e nada mais, agora atiram em criancinhas. As atrocidades de hoje eram completamente inimagináveis há dois anos atrás.

 

 

 

Qual é a história deles? O que foi que aconteceu com o comerciante, o estudante, o motorista? Quais eventos os levaram de bondade a violência? De cavalheirismo a abuso?

Geralmente nāo queremos ouvir a história do antagonista, mas eu vou atrás delas, fazer um esforço para que as histórias nāo só das vítimas mas também dos perpetradores, sejam ouvidas. E tenho uma suspeita de que aprendamos que os perpetradores próprios sāo também vítimas, e talvez os vítimas também sejam perpetradores. Porque o perdāo terá que acontecer. É muito mais fácil tentar perdoar alguém que tem uma história, um outro ser humano, do que perdoar uma figura sem face, nāo é?

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