“Volunturismo”… “Turismo de pobreza”… “Missoes de curto-prazo”

Minha opiniāo sobre “voluntourismo”, “turismo de pobreza”, “missōes de curto-prazo”, o seja lá o que você quer chamar.

Esta semana, começando a minar a internet por evidências legais de culturlaçamento, achei pouco que me interessasse… só uns blogs e artigos publicados nos últimos meses sobre esse assunto que está aumentando em polêmica. É chamado de várias coisas, mas eu vou usar o termo ‘volunturismo’, pois acho legal. Você pode trocar mentalmente por qualquer outro nome.

Passei minha juventude próximo a muitos que recebiam tais visitas, e passei grande parte da minha vida de adulto trabalhando com grupos que encaixam nesta categoria. Entāo tenho muitos pensamentos a respeito e quero compartilhar alguns.

Primeira idéia: contato transcultural é bom. Creio firmemente que é bom interagirmos com pessoas que sejam diferentes de nós. Tal interaçāo contribue à riqueza de nossas experiências de vida, da espiritualidade, e da humanidade. Digo isto porque me parece que muitos integrantes no debate dizem, com razāo, que parece esquisito viajar para outro continente do mundo para ajudar pessoas, embora exista bastante necessidade logo na própria vizinhança local do voluntário. Isso é um argumento razoável, mas também acho que nāo seja uma comparaçāo válida. Viajar e conhecer pessoas diferentes é coisa boa, por si. (E nāo, turs cinco-estrela de empresa com guia nāo constam. Conhecer guias de turismo profissionais nāo é conhecer um povo diferente nāo.)

Segunda idéia: interaçāo transcultural é um vai e vem. A maioria dos debates sobre volunturismo se focalizam ou nos viajantes e o que eles ganham da experiência, ou entāo nos que recebem e naquilo que eles ganham ou nāo ganham da experiência. Nāo quero repetir esses argumentos pois já existem bons artigos (embora em inglês) que expliquem bem essa dinâmica à base de riqueza. Clique AQUI ou AQUI! Esses artigos contem bons argumentos, mas acho que esqueceram de uma outra observaçāo importante: pessoas que recebem volunturistas TAMBÉM gostam de conhecer gente nova! E gostam de conhecer pessoas que sāo diferente delas. Para muitos amigos meus, receber alguém de outro país na sua casa é uma alegria que só será vencida quando/se tiverem a oportunidade de visitar aquele outro país por si mesmo. Ao ler esses artigos, tentei pensar em exemplos de quando os “recebedores” ficaram irritados ou zangados com os volunturistas. Pensei em alguns, mas sua irritaçāo tinha mais haver com um evento ou questāo específio, nāo o próprio encontro. Todo mundo que conheço que já foi um tal “beneficiente” de volunturismo, apreciou a oportunidade de conhecer gente diferente. O ganho relacional é uma rua de duas māos.

Porém, tenho que entrar com um aviso. Alguns artigos falaram sobre como o volunturismo tem danificado orfanatos ao apresentar uma oportunidade para uma criança conhecer um adulto e se apaixonar por ele e em seguida ser abandonada – outra vez. Ou pior ainda, criando órphāos só para poder receber mais visitas. Entros transculturais sāo bons, sim, e sim, é dupla-māo. Mas também tem uma ética sensível e tem que ser feit com grande sensibilidade.

Terceira idéia: Acredito que a coisa mais injusta sobre o volunturismo é que certos paises enviam pessoas e outros paises recebem pessoas. Isso é quase uma regra. É difícil encontrar uma viagem missionária da Bolívia para os E.U.A., ou um grupo de voluntários sírios indo ao Reino Unido para trabalhar durante alguns emses. Mas nāo duvido que teria uma fila enorme de bolivianos e sírios animados para participar se existisse uma probabilidade razoável que que conseguissem VISTOS para entrar naqueles paises, nem falando em custos de viagem. Uma grande desvantagem de volunturismo que nāo vi mencionado nos debates online é que serve como uma lembrança clara de como é injusta a política e economia global, na qual algumas pessoas neste mundo tem liberdade absoluta de movimento e outros nāo. O meu passaporte me dá a possibilidade de ser turista ou voluntária em quase qualquer naçāo que eu quiser. Os passaportes de meus amigos brasileiros permitem que eles vāo a certos paises mas nāo outros. Meus amigos palestinos nem tem passaportes. Eu nāo acho isso justo.

Quarta idéia: Nāo devemos nos enganar em pensar que o volunturismo contribue a um mundo melhor, em termos materiais. Claro que existem histórias de médicos fazendo milagres ou um poço recém construido irrigando grandes trechos de fazendas. Uma vez fui tradutora por dois médicos da Índia fazendo cirugias de cataratas por refugiados no Líbano durante 1 semana. Fizemos 70 cirugias em menos de 4 dias. 70 pessoas que nāo podiam ver antes agora tem vista. Isso é bacana. Mas acontece que médicos libaneses também sabem fazer cirugia de catarata, e muitos de nós tiramos uma semana longe do trabalho para ajudar os indianos, fuimos hospedados em um hotel bom, passagens de aviāo custaram basatnte, e entāo criamos poluiçāo, etc. etc. etc. E pode crer que este é um dos bons exemplos de volunturismo; poucas viagens tem uma vantagem tāo boa assim. Entāo, quase sempre, o bom material resultante do volunturismo nāo chega a ser tanto quanto os custos materiais. Milhares de dólares em passagens aéreas para entregar uma caixa de roupas usadas? Seria mais em conta comprar as roupas lá mesmo ou entāo enviar pelo correio. E impacto religioso? É a mesma coisa: se uma igreja quer expandir em uma regiāo, provavelmente será mais eficiente se a igreja apoiar pessoas que falem a lingua para fazer o trabalho de evangelizaçāo. Essa nāo é a idéia principal do volunturismo. É sobre relacionamentos e aprendizagem. É sobre uma profundeza de culturlaçamento que nāo pode ser medido em bens práticos.

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