uma olhadinha triste atrás do véu – nāo sāo todas assim nāo!

Ela Gosta de Cores Brilhantes, Jordânia, 24 de setembro de 2008

É possível uma pessoa “resmungar” para entrar numa sala? O jeito que andava me parecia com um resmungo. Passinhos minúsculos, olhos virados para nada específico. Sua rijab e sua abaia eram velhas e esfarrapadas, desbotadas, mas também eram, sem dúvida, amarelas, de cabeça até os pés. Seu rosto aparentava ser idoso, como se ela estivesse aproximando ao fim de uma vida longa e dura. Mas mesmo andando com tanto cançaso, fiquei com a impressāo de que embaixo daquela abaia escondia um corpo forte e preservado.

Ela sentou e nós explicamos que queríamos conhecê-la e fazer algumas perguntas, para poder melhor entendermos a situaçāo de mulheres como ela. Ela respondeu abrindo um papelzinho que tinha dobrado na māo, amassado de segurar tāo forte. Continha o nome do seu filho e uma foto e algumas informaçōes médicas sobre ele. Ela queria ajuda pelo filho. Só isso. E se nāo tivéssemos condiçōes de ajudar seu filho, abriu outra folha de papel com dados parecidos sobre seu marido. Talvéz pudéssemos ajudar a ele.

Nāo sei se ela realmente entendeu quando explicamos que nāo poderíamos ajudar com as necessidades da família, mesmo reconhecendo sua veracidade. Mas mesmo assim, ela decidiu ficar e responder às nossas perguntas. E entāo nós perguntamos sobre sua família, sobre suas origens.

Seu marido nāo trabalha, seus filhos nāo contribuem com as despesas da casa, e nāo é geralmente aceito as mulheres da família trabalharem. Entāo ela mendiga. Uma filha recentemente começou a trabalhar – é o único membro da família que contribue às despesas da casa. Outra filha está morando com eles por um tempo porque fugiu de um mal casamento.

Essa mulher nem sabe o que quer dizer violência. E quando perguntamos sobre homens batendo nas esposas, ela nāo sabia que isso é mal, disse que é normal. Tem 55 anos, e o seu marido costumava bater muito nela, e suas filhas já passaram por isso, mas é assim que é a vida. Seus filhos nāo fazem nada por ela, até parece que eles tem prazer em dificultar a vida dela. Seus pais nunca a mandaram à escola, e acharam um marido para ela quando ainda era menina. Mas ela nāo estava triste: disse que veio a nós por ajuda e segue enfrentando a vida.

Eu tinha dúvidas se deveria escrever isso aqui porque me parece muito pessoal falar assim desta mulher… nem sei qual é seu nome. Mas a verdade é que foi um privilégio conhecer a ela porque existem tantas mulheres no mundo com histórias parecidas mas que nunca tem essa conversa com uma pessoa de fora do seu pequeno círculo familiar. No fim, esta mulher combina com a multidāo de tantas outras faces moldadas por lenços.

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