roupas brilhantes como os tomates que carregam

Falahyeen, Sul da Síria, 9 de agosto de 2008

Passamos tenda após tenda à beira da estrada, montadas para a temporada de colheita de tomates. Essas tendas pousavam aos lados de enormes campos verdes. Próximo a um dos abrigos, vimos uma comemoraçāo: homens dançando dabke tradicional folclórico e mulheres batendo palmas. Mas essa foi a excepçāo. A maioria dos falahyeen trabalhavam duro.

Ao longo da estrada vimos barracas vendendo frutas e legumes, com mais ou menos 80% da mercadoria sendo tomates vermelhíssimos. Nos campos detrás, vi mulheres de saia comprida, blusa de manga comprida e cabeça cobertas, puxando tomates dos vinhos sem nem sinal de cançaso.

Um pouco depois, vimos meia-dúzia de mulheres atravessando a estrada. A maioria levava baldes enormes de tomates – pelo menos uns 20 quilos cada – na cabeça. Correram para atravesar as pistas sentido-sul, aí atravessaram o gramado do meio com calma. Esperaram o nosso carro passar antes de atravessar as pistas sentido-norte.

Mesmo passando por elas a 120 km por hora, percebi que suas roupas eram de cores brilhantes. Uma mulher vestia todo vermelho com moedas douradas enveitando o lenço da cabeça e o cinto. Outra usava saia azul com blusa toda florida, o lenço que cobria a cabeça também era de alguma cor choquante mas nāo lembro mais qual. Essas mulheres andaram com aprumo e força e pique que nāo acabava.

Em um sábado do mês passado, tivemos a oportunidade de passar a tarde trabalhando com três mulheres falahyeen. O trabalho delas era de tirar pedras de um campo que seria usado em um projeto de eco-agricultura. Passamos duas horas com elas. Movemos pedras durante duas horas e logo escapamos para sentar e tomar refri e chá. Elas já estavam lá quando chegamos e mesmo assim conseguiram fazer essa tarefa árdua ser mais como uma festa deslumbrante. Cada moça vestia uma saia comprida e calça comprida embaixo da saia, uma blusa quentinha e um lenço na cabeça. Mas nāo creio que vestiam assim pela modéstia – afinal das contas, paqueravam felizíssimas com os moços do nosso grupo. É simplesmente isso que vestem.

Eu e umas amigas passaram na casa delas depois do fim do expediente. Encontramos as moças limpas da sujeira que cobrira seus rostos e māos. Suas faces ainda tinham uma cor escura do sol, suas cabeças continuavam cobertas, e seus sorrisos mantiveram sua beleza. E suas roupas ainda eram brilhantes. Ficamos com a impressāo de que elas estivessem prestes a preparar o almoço… mas primeiro, insistiram em tomar chá conosco antes de voltarmos à cidade grande.

Os falahyeen que vi hoje moram em tendas do lado dos campos onde trabalham. Eles sāo um tipo de trabalhador migrante, indo aos campos onde e quando encontram trabalho. No momento os tomates no Sul precisam ser colheitos. O sol de agosto é sofrido aqui, e eles trabalham o dia todo nos campos. Mas seu pique nāo acaba. Eles correm e riem e festejam, e as meninas batem papo com meninos e os meninos batem papo com meninas. Eles colhem os tomates e os carregam até as barracas para ser vendidos. Suas roupas brilham como seus sorrisos, cujo brilho é refletido nos tomates de agosto.

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