Porque acho que devem ser as empresas que salvam o mundo

Estou tentando algo diferente hoje. Me diga o que achou… interessante? Tedioso? Me fala! E também, estou curiosa para saber sua opiniāo desta questāo.

Um blog que visito de vez em quando, Tales From the Hood, começou um “fórum de blogs humanitários” em que vários trabalhadores humanitários (como eu) podem comentar sobre uma questāo relacionada ao nosso trabalho. O assunto desta semana é Responsabilide Social Corporativa, um assunto de grande interesse para mim, entāo achei lega participar.

Entāo, eis minha opiniāo…

Morei durante alguns anos no Líbano. Ao chegar no aeroporto internacional de Beirute, você encontra o seguinte: pisos de mármore, luzes florescentes mas com um brilho que cai bem nos olhos, uma loja duty-free tremenda (na verdade, duas lojas, uma em cada lado da área de bagagem para fácil acesso) – e uma fileira de representantes de hoteis 4/5 estrelas famosos (como o Intercontinental ou o Marriott) oferecendo quartos por $300 ou mais a noite. Fora do aeroporto, uma barragem de outdoor por produtos de luxo te encontra à beira da estrada. É como chegar num país europeo, mas mais chique.

Aí, alguns anos depois, fui enviada a trabalho para o Cosovo. Chegando no Aeroporto Internacional de Pristina, eis o que encontrei: uma caminhadinha do aviāo até o armazém que serve como terminal, uma maquininha do cinto de bagagem velha e barulhenta, um homem olhando nossos passaportes como se nāo soubesse o que fazer com eles, e nenhum espaço para os familiares esperarem pelos seus amados. Uma estradinha nāo-pavimentada era a única maneira de entrar na cidade. Nāo tinha outdoor nenhum, e o tempo frio-gelado só servia para confirmar o estereótipo desolado da Leste de Europa.

Aeroporto humilde e lindinha de Pristina, capital de Côsovo

Passei os próximos meses considerando o que seria a diferença entre o Líbano e o Côsovo. Ambos os paises tem histórias de conflito, o pior da violência nos dois paises terminou há mais ou menos uma década, eles sāo mais-ou-menos do mesmo tamanho, e tanto Côsovo quanto Líbano depende de uma populaçāo enorme no diáspora – ou seja, cidadāos morando no exterior que ainda amam seu país.

E acabei decidindo o seguinte: investimento empresarial é o que faz a diferença. Muitos desses membros da diáspora libanesa sāo empresariantes. Segundos depois de um cessar-fogo ser declarado, estes já procuram maneiras de lucrar da reconstruçāo do seu país. Um ano depois de 2006 (julho e agosto sofrendo uma grande luta entre Hizbolá e o Israel em Beirute e as cidades do sul), nāo tinha nem como saber que uma guerra jamais aconteceu naquelas terras, pois os restaurantes já tinham consertado suas paredes, os shoppings já consertado seus estacionamentos, e os hotéis de praia já limpado a aréia de todos os vestiges de guerra. Eles se recusavam em perder uma oportunidade de fazer dinheiro, e no processo investiram na estabilidade do Líbano.

Claro que o Líbano continua pouco estável. Mas é mais estável do que o Côsovo, apesar da violência em Côsovo durante essa última década ter sido menos do que no Líbano. Em  Côsovo, quase nāo existe criaçāo de empregos, o povo só nāo sai porque nāo consegue visto, e a infraestrutura está sendo constriuda com a mesma rapidez como se eu construisse com minhas próprias duas māos. Se perguntar para um libanês se está feliz no Líbano, vai falar que nāo mas logo em seguida alistar uma dúzia de coisas que ama sobre o Líbano. Se fizer a mesma pergunta a um Cosovar, ele vai te dar uma lista que descreve o seu sonho de como algum dia o Côsovo possívelmente poderá ser.

Quando perguntei a pessoas em Côsovo porque nāo existia investimento internacional lá (nāo existe MacDonalds, é difícil achar marcas conhecidas de roupas ou carros, e sāo poucos os bancos ou postos de gasolinas com títulos que você reconheceria), eles disseram que é por causa da instabilidade do país. Investidores tem medo de investir fundos demais no país porque ainda ninguém sabe se tudo vai voltar a conflito. Eles poderiam gastar dinheiro em Côsovo, aí guerra explodir, entāo eles perderiam tudo.

Bem, a essas pessoas quero dizer: isso aconteceu no Líbano, várias vezes, e o povo continua o ciclo de primeiro acumular uma dívida enorme, e em seguida lucrar com bilhōes de dólares.

Responsabilidade Social Corporativa, quando é simplesmente sobre ajudar pessoas, é uma má idéia. As empresas ficam preocupados que nāo vai dar certo e acabam apoiando projetos grande o suficiente para tirar umas fotos que rendam publicidade boa, mas pequenos demais para realmente ajudar. Mas quando as empresas tiverem disponibilidade de arriscar mais, aí é que acontece algo: os pobres ficam menos pobres, e os ricos mais ricos.

Esta entrada foi publicada em obra humanitária e marcada com a tag , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.