Michael o Irlandês

Fazia frio. O sol estava terminando de se despedir no céu sem nuvens. Fazia muito frio. Eu caminhava num bairro onde meus amigos haviam aconselhado que nāo caminhe a noite. Fazia muito muito frio.

Entāo, eu andava, o mais rápido possível, tanto para evitar seres suspeitas quando para evitar o vento frio que picava meu rosto.

“Essa que é uma blusa quentinha!”

Isso veio detrás de mim. E deixe-me falar, que nada te esquenta como levar susto com a voz de uma pessoa andando atrás de você! Dei uma olhada pra ver quem era e disse, “Como?”

“Sua blusa. Parece quentinho!”, respondeu o homem grisalho, baixo e gordinho, com um sotaque que nāo era local. Ele andava rápido, e curvado de uma maneira que me parecia ser a estratégia dele para se proteger contra o frio.

“Ah.” Tentei sorrir mas nāo acho que consegui. “Bem, eu ainda sinto bastante frio!” E sentia mesmo, receiando minha decisāo de vestira meia dúzia de malhas hoje ao invés de simplesmente me conformar ao casaco de inverno.

“Pra falar a verdade, é um dia lindo”, comentou. “Ventinho leve, nāo frio demais.”

Acho que dei uma resmungada.

A essa altura ele caminhava junto comigo e eu nāo sabia como reagir ao fato de um homem grisalho estar marchando comigo num pôr do sol friozinho num bairro que se curte durante as horas de sol. Ele perguntou de onde sou.

Considerei mentalmente a lista de paises das quais eu poderia dizer que é meu. Nāo sabia qual melhor encaixava nesta conversa, entāo escolhi um que melhor explicasse o frio que sofria: Brasil.

“Ah! Brasil! Onde fazem aqueles grāos de café lindos!” Ele era mesmo alegre demais por um dia frio assim.

“Pois é, é a gente!” Pausa breve. “E entāo, o senhor é de onde?”

E como ele deve ter esperado para que eu lhe perguntasse algo! Me contou da vida dele, que é irlandês e que mora em Londres há 10 anos, que trabalha em construçāo e no momento no projeto para renovar a parque que passávamos.

Aí ele perguntou meu nome. Hesitante, falei.

Ele respondeu, “Meu nome é Michael. Vou virar aqui. Foi bom te conhecer.” E meteu uma māo nodosa de trabalhador na minha cara. Apertei e ele entrou outra vez no parque.

Continuei com minha caminhada, sentindo grata por ter tido um encontro de acaso hoje. De vez em quando precisamos de encontros de acaso, nāo é?

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