meu conto de 11/9

De certa forma, os eventos de 10 anos atrás definiram o resto de minha vida.

Em aproximadamente 1/9 daquela ano, viajei do Brasil, onde passei alguns meses, até os EUA. O meu plano era de terminar de fazer as malas, me despedir de amigos depois de 6 anos morando lá, e viajar para a Síria no dia 17. Sim, é verdade: tinha planos para me mudar à Síria para estudar o árabe. Minha idéia era que aprender o árabe ia facilitar achar um emprego depois, e também me dar experiência transcultural num context diferente e exótico, assim me preparando para ser perita em relaçōes transculturais.

Na manhā do dia 11, fui acordada pelo telefone tocando. Foi um dia lindo, céu azul e ventinho leve. Fiquei bem irritada com minha avó por me interromper, e demorou um pouco para ela me convencer a ligar a TV para ver as notícias.

O resto do dia foi passado de uma forma típica dos americanos da costa leste. Esconder em casa? Procurar amigos? Ligar a televisāo e assistir o dia todo? Decidi sair para fazer cooper, para tentar renovar a cabeça um pouco. Algumas coisas me incomodavam. Primeiro, minha família estava espalhada: irmāo em uma cidade da costa leste dos EUA, pai em outro estado da costa leste, e coitada da māe no Brasil tentando nos contatar mas nāo achando linha telefônica.

Claro que todos presumiram que minha viagem à Síria seria cancelada. Mas depois de muitas horas de reuniōes e telefonemas, nem meus mentores nem meus pais nem eu achou um motivo válido para cancelar. Como minha tia nova-iorquina disse quando ligou para implorar que nāo fosse, “se nada mais, esse evento nos demonstrou que ninguém é seguro, em lugar nenhum.” Exatamente: entāo porque nāo Síria?

Viajei no primeiro vôo internacional do aeroporto, um dos primeiros saindo do país. Me lembro que só podia levar no aviāo, na minha mudança semi-permanente pro outro lado da terra, o meu laptop, minha câmera, minha carteira e meu passaporte. Lembro claramente como passei aquele tempo admirada de como nessa semana, entre todas as semanas, consegui viajar no vôo originalmente programado, e que tudo foi conforme o plano original. Foi assim que eu soube que nossa decisāo foi certa, e que foi de Deus.

Naqueles primeiros dias... as demonstraçōes pró-Palestina foram a primeira indicaçaao que tive de que nāo seria possível a gente dar as māos e ser todos amigos

Adivinhe o que encontrei na Síria! Conheci um país cheio de pessoas que se juntaram em solidariedade quando souberam que sou americana, de pessoas completamente desconhecidas que me deram um abraço de conforto só por saber o que aconteceu no meu país. Conheci pessoas que entendiam a invasāo de Afganistāo e que fariam qualquer coisa para apoiar os Estados Unidos, um sentimento que restou até ouvirmos ruidos sobre invadir o Iraque. O triste era que nāo demorou muito para aquela emoçāo de apoio sumir, com ódio amargo tomando seu lugar. E é aquele ódio amargo que ficou. Durante os próximos três anos morando no Oriente Médio, vi essa transformaçāo e vi as carrancas e os sulcos aumentarem com cada inspeçāo de passaporte e cruzamento de fronteira. Logo, entrei no hábito de segurar o passaporte de cima pra baixo para que as pessoas nāo soubessem o que tinha na capa. Mas uma semana depois de 11/9/01, o mundo estava com a América.

Sofro de lealdade dividida. Meus amigos na Síria e outros paises árabes sāo como família para mim e eles conseguiram me mostrar como é o mundo do ponto de vista deles. Como queria que o pessoal no Ocidente visse o que eu ví no Oriente, e que o pessoal do Oriente pudesse ver o que sei do Ocidente. Queria me sentir competente, para ser a janela entre os dois mundos, mas nāo sinto. Quero ajudar as pessoas a ouvirem um ao outro, mas me parece tāo difícil.

 

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