Me sinto terrível

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Há pouco, voltava para casa de metrô, me focalizando intentamente no meu trabalho… determinada a terminar antes de chegar em casa.

Depois de uns 15 minutos, de um total de uma hora, uma mulher entrou no trêm. Eu nem teria pensado em levantar os olhos da literatura que revistava, mas ela disse – em uma voz nāo muito quieta – “Tinha uma festa atrasada de Dia das Bruxas. É por isso que tenho essa aparência. Estou tāo envergonhada, mas é porque tinha uma festa de Dia das Bruxas hoje.” Entāo olhei, o mais furtivamente possível, e vi uma senhora loira com mexas cor de rosa no cabelo e um rosto cor de rosa, muito além do que seria natural. Levava umas sacolas normais inchadas, que imaginei continham sua fantasia por aquela festa do Dia das Bruxas.

E imagine só… ela decidiu sentar justo do meu lado! Ao sentar, repetiu sua desculpa da festa. Também, emitia um perfume forte de cerveja. Eu nāo gosto de cerveja, o cheiro de cerveja para ser exato.

Entāo me agachei e tentei me focalizar no trabalho. Essa parecia ser a melhor alternativa – se nāo era capaz de ficar encarando ela sem educaçāo nenhuma. Mas conseguir dar umas olhadinhas no sentido dela e vi que seus pés também eram cor de rosa e que ela usava sandália (aqui nāo faz calor nāo!). Suas unhas do pé eram pintadas vermelho. Mas sério, a minha atençāo estava virada no meu trabalho.

E foi entāo que eu ouvi. Um soluço. Resisti a tentaçāo de olhar, mas me parecia ser soluço de choro.

Depois de um minuto seu telefone tocou. Ela atendeu numa voz raspada que confirmava aquilo que suspeitava. É assim que eu soou quando chorando. Ela disse o seguinte: “Estou no trêm. Você sabe disso. Entāo nāo quero falar agora.” Sem se despidir, fechou o telefone. E os soluços aumentaram.

Tentei ignorá-la educadamente, mas o ciclo de telefone-e-soluço se repetiu mais algumas vezes ao rodarmos para a cidade. Deu uma vontade dolorosamente forte no meu coraçāo de ajudá-la a carregar suas sacolas. Mas aqui é Londres, nāo imagino que é assim que as pessoas aqui façam. Além disso, ela ia desembarcar muito muito antes do meu destino (sabia isso porque ela comentou em um dos seus telefonemas). Além disso, suas sacolas eram grandinhas mas pareciam ser bem leves. Além disso, sou tímida.

E esse era o verdadeiro motivo pelo qual eu nāo pude oferecer ajudar. Eu tinha medo. E isso me envergonhou diante de Deus. Me sinto terrível, vendo minha fraqueza, minha falta de capacidade para responder. Quando ela estava prestes a desembarcar, de acidente ela me bateu com uma das sacolas, e pediu desculpas. Eu disse que tudo bem e perguntei se ela precisava de alguma ajuda. Ela nāo me ouviu e eu nāo repiti minha oferta. Só fiquei olhando, inútil.

Quando ela finalmente desceu do trêm, duas coisas aconteceram. Primeiro, juro que ao levantar, ela disse: “Tenho tanto medo.” Segundo, juro que dois dos passageiros que sentavam de frente para ela davam risadas.

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