Ele viveu do turismo – agora ele é turismo

Uma coisa que já fiz várias vezes e que adoro fazer, é acompanhar grupos que fazem tur da Síria, dando um pano-de-fundo cultural às coisas que vêem. É tremendo poder dar uma perspectiva humana às pilhas de ruinas antigas, mas também aprendi que eu, pessoalmente, tenho que evitar os guias oficiais e atividades super-turísticas. Se nāo, fico irritadíssima. Esta história foi escrita durante um tur que fiz com um grupo de 20 voluntários-estudantes.

Ele faz parte das Ruinas, Homs, Síria, 8 de julho de 2008

Passei uma tarde toda com um dono de restaurante. O restaurante dele é perfeitamente localizado para ter um clientela constante, pois é a única pousada que fica em frente a entrada de um dos maiores destinos turísticos deste país: Crac des Chevaliers, um enorme castelo da época das Cruzadas, situado no topo de uma montanha, com vista impressionante por dezenas de quilômetros em toda direçāo.

Uma amiga, o motorista do ônibos e eu, passamos a tarde no restaurante enquanto o resto do grupo passeiou no castelo. Quando eles terminaram o tur, nāo paravam de balbuciar sobre a vista do ponto mais alto. Sei muito bem que é uma vista incrível, mas a vista do restaurante também nāo era nada a ser menosprezado: o vale enteiro estendia abaixo, com pontinhos de vilarejos e fazendas, emoldurado por árvores de romā e de damasco. Fiquei mais admirada ainda a entender que estavamos almoçando os frutos daquelas árvores.

Entrando, fomos recebidos com ânimo por todos os funcionários do restaurante, e mais animadamente ainda pelo próprio dono. Chegamos fora da temporada, na parte da tarde menos movimentada, entāo sentamos do ladinho de uma janela, e o dono ficou conosco para bater um papinho antes de comermos.

Um tipo jovial com cabelos branquinhos cortadinhos, com dentes amarelados e pele queimada, ele era baixinho e redondo e se acomodou bem na cadeira. Com pique, explicou o porquê de nāo servir muita carne de carneiro no restaurante: é que existem poucas cortes do carneiro que sirvam para comer e ele quer só servir o melhor – e nāo quer fazer desgasto. Explicou que, para fazer quibe naie (um prato delicioso com carne cru) só pode mesmo ser fresquinho, pois a carne nāo pode ter sido jamais refrigerado. Falou bastante sobre suas plantas e árvores e os temperos que usa. Esse discurso foi dado ao som de nossa barrigas resmungando de fome durante a breve espera pela comida. E logo descobrimos que o dono conhece mesmo sua comida, pois cada prato foi especial, com um gosto único… uma verdadeira delícia.

Enquanto comemos, ele nos deixou em paz, mas assim que terminamos, voltou. Começou a cantar pra nós – uma cançāo criada na hora por cada um de nós. Seu árabe era eloquente e poético, o que quer dizer que entendi pouco. E agora confesso ter esquecido do pouco que havia entendido dos provérbios e poemas que recitou. O que queria mesmo era ter abrido meu caderno e anotado cada palavra que ele disse. Sua sabedoria e aprumo me comunicou que ele é formado, e que tem um orgulho profundo da sua herança – em ser um árabe que nasceu no meio da história local.

Perguntei pra minha amiga quanto tempo ele já estava aqui trabalhando neste restaurante. Ela olhou pro motorista que deu uma encolhida nos ombros. Os dois olharam pra mim grandemente e ela disse: “Puxa. Acho que ele está aqui desde a época das ruinas!”

Esta entrada foi publicada em viagem e marcada com a tag , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.