Dá um dorzinho quando alguém que tem nada é tāo bom

Embora ter acabado de começar neste blog, estou trabalhando num projeto intensivo durante o próximo mês e meio. Tenho medo de faltar tempo para escrever, entāo estou reproduzindo aqui algumas histórias culturlaçadas do meu velho blog. Espero que curtem!

“Zelador atenciosāo” 9 de junho de 2008

Neste momento estou no Aeroporto Internacional de Damasco, a espera de um vôo atrasado de 3 horas. Sentada numa cadeira de plástico, do lado de uma coluna na grande sala de espera, e de costas para um quiosquezinho de café. Estou escrevendo no computador usando uma das poucas tomadas elétricas ativas neste edifício. Tenho uma garrafa de água gelada do lado, e é possível que receba um café daqui a pouco. Como cheguei a este duvidoso trono de luxo?

Foi assim. Depois de sentar no restaurante durante algumas horas, decidi fazer uma caminhada pelo terminal. Passei por várias salas de esperas pensando em parar se por acaso encontrasse uma tomada para carregar meu computador. Achei uma e fortuitamente, os assentos ao redor estavam vazios, entāo me sentei e comecei a tirar o laptop e carregador da mala. Perto de mim, um zelador rodava um balde com seu esfregāo de tamanho industrial. Ele arrumou a lata de lixo mais próxima, e pensei que ele quisesse limpar o chāo perto de mim. Mas nāo: ele me aproximou, mas nāo quis limpar. Pegou o carregador e começou a mexer na tomada para mim.

Perguntei se a tomada funcionava.
Ele disse que nāo sabia.
Falei, Vamos tentar.
E ele respondeu que já devia estar funcionando. Deu certo?

Mas nāo funcionou, entāo ele mexeu mais um pouco mas sem resultado.

Ele me perguntou se eu tinha como saber com certeza se estava carregando.
Eu disse que sim e apontei para a luzinha que brilha quando o computador está conectado.
Ele respondeu, Tudo Bem, Vamos achar uma tomada pra senhora.
Eu falei, Nāo se preocupe. Ainda tenho bastante carga na bateria. Sério, pode deixar.

Ele saiu devagarinho, balde o seguindo, e eu comecei a enrolar os fios para guardar. Mas ele voltou depois de uns segundos e gesticulou para eu o seguir. Tentei insitir que nāo importava, mas ela já havia virado de costas pra mim outra vez.

Eu o segui até chegar nesta coluna. Ele apontou para duas colunas e disse, As duas tem tomadas, vamos tentar.
Vasculhei o espaço e nāo vi lugar para sentar, entāo respondi, Acho que nāo quero sentar naquele chāo aí nāo.
E ele prometeu, Se nós conseguirmos te conectar, arrumo uma cadeira.

Uma das colunas tinha um pote grande para plantas, que dava pra dar um jeito e sentar, mas a tomada naquela coluna já era suspeita só de olhar. Entāo viemos até esta coluna aqui, minha coluna, e tentamos. Deu certo sim. Entāo ele partiu, um pé após o outro para pegar uma cadeira, eu de pé do lado da coluna por uns minutos sem saber o que fazer. Ele voltou logo com uma cadeira de plástico, e aqui estou.

Pensei que talvez era pra dar uma gorgeta ou algo assim, mas nāo sabia como. Ele limpou o chāo ao redor da minha coluna por uns segundos, aí perguntou se eu queria um cafezinho. Respondi que nāo e ele arrastou o balde para outra parte do aeroporto.

Alguns minutos passaram e ele voltou com uma garrafa d’água. Abriu pra mim entāo nāo tinha como recusar – ou, depois de melhor inspeçāo, vi que ele estava disfarçando o fato de ser água de torneira numa garrafa usada. Ele sumiu outra vez, murmurando algo sobre café e eu ainda recusando.

No tempo desde que comecei a escrever este retrato, ele passou outra vez, vendo se estava tudo bem comigo e sorrindo um pouco. Nada de café. Acho que realmente devo dar uma gorgeta, mas nāo sei bem como fazer, já que ele tem mesmo jeito de uma pessoa simpática e simples.

E agora, ouço outra vez o rangido das rodas no seu balde de esfregāo. Me viro e vejo ele outra vez, e agora ele me dá um Sprite diet.

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