Com um sobrinhinho, histórias de meninos fazendo xixi me captam

Um menino, um ônibus, e uma falta de vergonha, Damasco, Síria, 4 de julho de 2008

Outro dia estava a caminho da cidade, na minha rota típica. As calçadas nāo sāo das melhores, mas a avenida é bastante movimentada, entāo geralmente pulo de um lado pro outro, de espaços estreitos e quietos para trechos espaçosos mas cheios de carros.

Em um dos trechos mais estreitos, passei por trás de um grande ônibus interurbando. Atrás do ônibos vi um menino, lá pelos 7 aninhos de idade. Logo vi que ele estava olhando pro ônibos, com sua cabeça mais ou menos paralelo ao topo do espaço de armazenamento que ficava no meio do ônibos, debaixo da área para passageiros. Justo no momento em que passei por trás dele, começou a fazer xixi na manivela da armazenamento. Com uma mira calculada, direto pra manivela. Ele me deu uma olhada rápida, aí voltou a encharcar aquela manivela. Ah, o coitado do motorista que ia ter que abrir aquela portinha!

Várias perguntas surgiram na minha cabeça. A mais básica era: O menino nāo tem vergonha nāo? Nāo tinha idéia de que fazer xixi publicamente nāo era das melhores idéias? Imagino que seus pais nunca o ensinaram isso e, considerando as outras coisas que vi neste país, é possível que tenham ensinado o contrário: achar um espaço meio-isolado, virar pra longe do povo, e atira.

Aí, pensei, Porque a manivela do armazenamento? Porque mirava num ônibus e nāo uma parede ou algo assim? Talvez tinha algo inato na mente jovem daquele menino que os comunicava a necessidade de mirar pra alguma coisa, e a coisa que viu era a manivela. Ou, numa cena bem mais interessante, talvez isso era uma forma de vingança jovem! O menino estaria irritado com o motorista, e entāo mirando para um lugar onde o outro teria que tocar? Ou talvez o menino teve alguma experiência feia que o marcou, algo que tinha haver com armazenamento de ônibos – quem sabe foi trancado dentro de um espaço assim algum vez ou ele tinha retirado algo terrível de dentro de um, e isso era expressāo de sua amargura, sua forma de tratar memórias difíceis. Isso tudo na cabeça de um menino de 7 aninhos.

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