Americana se mostrando como se fosse daqui… num café em Camberwell, Londres

Hoje fui trabalhar num café charmoso não muito longe da minha casa. Foi minha primeira vez – já havia passado em frente mas me parecia um pouco chique demais e senti intimidada, mas hoje montei a coragem e fui.

Primeiro, o nome do café é Love Walk Café (ou seja, Café Passarela do Amor – legal, heim?) e se você por algum motivo estiver no sul de Londres, deve fazer uma visitinha lá. Foi tremendo! Décor ecletiquíssimo que quase chegou mas não chegou a distrair, e café fantástico (na minha opinião só – não posso representar as preferências dos diversos peritos de café). Não comi nada, mas as pessoas comendo ao meu redor pareciam estar bem contentes.

Mas tive um momento fantástico no café. Uma família de quatro estava atacando quatro cafés da manhão reforçados quando cheguei. Uma mãe, um pai e dois menininhos loirinhos daquela idade que não tem como ficar parados. Pelos sotaques, era óbvio que eram ingleses.

Ao começarem a preparar para partir, chamaram uma garçonete e o pai perguntou, no seu sotaque inglês certinho, como chegar no Aquário de Londres. Explicou que vieram de fora da cidade e sabiam que ficava próximo a Waterloo mas não tinham certeza como chegar lá. A garçonete, num sotaque forte do Leste da Europa, pediu desculpas pois também não conhecia o bairro de Camberwell  então não sabia orientá-lo com respeito às rotas de ônibus. Ela voltou ao trabalho, o pai deu uma encolhida dos ombros, os meninos pularam nas cadeiras.

Eu ouvi cada palavra dessa conversa à distância de algumas mesas. Estava, na verdade, no outro lado da sala, mas mesmo assim deu pra ouvir tudo. Então consegui captar o olho do pai e chamei, no meu sotaque americano bobo (sim, é assim que os ingleses o percebem), que se queriam chegar no Aquário podia ir ao ponte de Westminster, mas que Waterloo também não era muito longe. Se fosse eu, andaria os cinco minutos até Camberwell Green e montava o Número 12, mas ele podia verificar as listas dos ônibus aqui em frente também pois vários outros ônibus iam naquela direção.

E ele me agradeceu.

E eu sorri, presumidinha pensando que eu já era uma local de verdade. Uma americana orientando um inglês a Londres.

E depois disso, acho que gostei mais ainda do café por estar tão satisfeitinha.

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Trauma – quadrado

“Na época em que moramos em Homs, as crianças participavam de atividades artísticas na escola. Desenhavam árvores, pássaros, e imagens de outras crianças brincando. Agora, as crianças que conheço ainda gostam de desenhar, mas os desenhos são de armas, bombas e aeronaves de combate.”

Hoje, encontrei um vídeo no Huffington Post que era uma série de entrevistas com crianças na Síria. Uma menininha disse que o seu irmão começou a fazer o som de bombardeamento no sono: “BDUH BDUH BDUH!” Um menino na véspera da adolescência segurava seu novo brinquedo: uma coleção de invólucros de balas que cata ao passear pelo bairro, onde também gosta de olhar os cadáveres mais interessantes. Onde estão seus colegas de escola, pergunta a entrevistadora? Todos mortos. Neste vídeo, crianças falam sobre as cenas de guerra que vivenciaram como se estivessem fazendo um desenhinho a pedido da professora na escola: como se fosse completamente normal. Tudo bem que nem todas as crianças viram tudo isso, mas já é demais.

Então as famílias fogem. Assim que puderem, ou assim que ficar absolutamente impossível ficar em casa, mães arrumam as crianças, pagam tudo que tem a um traficante, e se encaminham a um país vizinho: Jordânia, ou talvez Iraque ou Líbano ou Turquia. Mas descobrem que escaparam a violência para enfrentar um novo trauma: uma viagem angustiante na qual não tem direitos nem proteção. O que será que acontece com essas mulheres e seus filhos na jornada? Aí, finalmente chegam. Estão seguros. Louvado seja Deus, gritam! Mas não tem casa, nem dinheiro, nem amigos, nem idéia de qual deverá ser o próximo passo, então essas mães se dedicam a trabalho duro e a certa medida de criatividade para que os filhos possam, ao mínimo, dormir em algum tipo de abrigo. Trauma acima de trauma acima de trauma.

Trauma quadrado. Ou será trauma cubado?

Já trabalhei em vários paises que lutam para se reconstruir depois de conflito, e a coisa que mais me esmaga o coração é o efeito de trauma. Pessoas sofrem depressão, psicose, esquizofrenia ou outras enfermidades (li hoje que muitos refugiados do Iraque sofrem de incontinência causada por trauma), mas elas tem que continuar com as vidas. Então buscam emprego, se apaixonam e casam, tem filhos. E fazem nada para tratar os danos psicológicos que sofreram.

Então cada outra pessoa que econtram é também afetada pela trauma daquela outra. Se você trabalhar com alguém que luta com doença psicológica, sabe que é complicado. E se quase todos os seus colegas de trabalho lutam com doença psicológica, não tem como alterar o ambiente enteiro. E crianças com pais que viram coisas que não pode nem falar, que vivenciaram coisas que queriam tanto poder esquecer… as vidas enteiras dessas crianças são influenciadas por isso. Em geral, parece que o trauma de guerra dura por umas duas gerações além da geração que viveu a guerra, até mesmo se a guerra tenha sido curta: por exemplo, o genocídio na Ruanda durou somente 4 meses, e aconteceu há duas décadas, mas o país continua na luta para se recuperar.

E então vejo o tecido enteiro da sociedade síria sendo redesenhado. Uma cultura nova, uma herança nova, um novo conjunto de sonhos vão surgir das cinzas de trauma… um país enteiro que recentemente só conhecia a paz agora sabe tudo a não ser paz. Tenho medo que esse tecido novo vai ser feio, e que sempre lamentaremos a perda do tecido lindo e protegido do passado.

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Como Za’atari virou uma cidade

“Afinal das contas, são sírios. Não era de se esperar?”

Essa é a mantra que se ouve entre especialistas em assistência humanitária, representantes de ONGs, funcionários da ONU e outros que trabalham com refugiados sírios na Jordânia. É assim que se explica como o campo de refugiados mais grande, bem, o único, parece mais com uma cidade do que um campo destituído no meio do deserto, o que realmente é.

Zaatari… deThe Levant Post – Jordan

Apresentação de Zaatari:

  • População: na faixa de 70,000. Todos dão um número diferente, mas essa é a média.
  • Indústria: Comércio de produtos subsidiados (por exemplo, um cobertor que custa 12 JD – equivalente a R$30 – fora do campo foi distribuído aos refugiados gratuitamente e agora é vendido por JD 2 – uns R$5 – que representa um lucro enorme).
  • Avenida principal: Uma fileira de barracas com lojinhas em frente, ou seja, o souq árabe ubíquo: uma feira. Há pouco que não se encontra nesse mercado.
  • Problemas sociais: Ninguém sabe exatamente qual a taxa de violência doméstica ou abuso sexual dentro do campo, mas em toda probabilidade é bem alta; centenas de moços adolescentes desempregados e agitados cria potencial de delinquência.
  • Atrações turísticas: Grupos de costura de mulheres que foram estabelecidos por ONGs e agora produzem lindos produtos de bordagem; a escola que foi ocupada por refugiados quando águas encheram suas barracas; crianças andando por aí em roupas velhas e sujas.
  • Como chegar: Para ser sincera, melhor nem tentar. Eu nunca cheguei a visitar Za’atari; fui à cidade mais próxima, uns 8 km do campo, mas me disseram que não tem como entrar se não tiver permissão ou um sorriso lindo para paquerar. Eu teria maior potencial de sucesso com a permissão do que com o sorriso, mas isso não era grande.

Bem, inúmeras pessoas estão conseguindo desviar do sistema. Permissões falsificadas? Homens com sorrisos esmagantes? Ou talvez os homens conseguem fazer com o dinheiro aquilo que as mulheres fazem com os sorrisos… Enfim, comerciantes jordanianos vão e vem, comprando e vendendo. Eles trazem ao campo os produtos que não são distribuidos: especiarias para cozinhar, equipamento eletrônico com baterias, maquiagem para as moças. E saiem do campo com cobertores e butijões de gás, certamente ainda com as insígnias da ONU ou de alguma ONG bem visíveis, obtidos por um preço baixo que é até ridículo.

Eu acho fantástico (com a excessão desses problemas sociais que mencionei acima), e se os refugiados sírios terem que sofrer algum estereótipo, fico contente em saber que eles tem a fama de ser gente empreendedora que sabem aproveitar até de uma situação terrível.

uma lojinha de verduras em Zaatari, de um artigo em http://english.alarabiya.net/articles/2012/09/27/240461.html

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Mulheres formidáveis! Um bilhão se erguendo, até no Sudão…

Você estava sabendo sobre os flashmobs One Billion Rising (Um Bilhão se Erguendo) no dia 16 de fevereiro deste ano (há somente duas semanas)? Me escapou no dia, mas agora que estou me atualizando, acho super bacana. Assista a este vídeo – certamente vale o investimento de 2.5 minutos – para conhecer mais:

Então, ví vídeos no YouTube desses flashmobs na Itália, Suiça, Índia, Albânia, Indonésia, e vários outros paises. Todos bem legais.

Mas quando ví um vídeo de 500 mulheres sudanesas numa universidade em Cartum participando, fiquei animadíssima. Em teoria, essas coisas não acontecem no Sudão. Protestos não são aceitos e, apesar de mulheres sudanesas serem fortíssimas e corajosíssimas, elas não curtem muitos direitos. Mas… foi fácil imaginar minhas amigas sudanesas participando disso e curtindo muito, mas muito mesmo. Me deu saudades delas.

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Um discursinho: Entediados a enlouquecer na espera para a guerra acabar!

Alguns dias atrás, postei aqui sobre uma linda mulher síria que conheci. Refugiada na Jordânia, uma das suas maiores frustraçōes era que ela e suas filhas estāo entediadas demais. Sem trabalho, sem escola, sem família por perto. E a verdade é, que ficaram traumatizadas ao sobreviver o bombardeamento do bairro delas na Síria, entāo sair da casa nāo as interessa muito.

Nesta minha jornada com amigos sírios, com os eventos atuais que estāo virando o país deles ponta-cabeça, e re-fazendo cada detalhe da realidade que eles conheciam, estou aprendendo mais sobre este fenômeno do tédio.

E eis a minha conclusāo (até hoje): No auge de conflito violento, existem dois tipos de pessoas. Tem aquelas que lutam. E tem o resto. E o resto tem absolutamente nada a fazer além de esperar.

Até māes lutando para cuidar dos filhos, até tios e primos determinados a proteger a família de perigo, podem fazer muito pouco durante a batalha. Só podem esconder, junto com as pessoas amadas, e esperar.

Em conflito violento, tanto preços quanto desemprego chegam a uma taxa enorme, deixando poucas pessoas com qualquer renda para sobrar. Refugiados que fugiram do conflito raramente encontram empregos. Falta de dinheiro para gastar impōe limites – às vezes nem comida tem na casa para ser usada na atividade de cozinhar.

Em conflito violento, linhas eletrônicas e telefônicas frequentemente sofrem. E até onde existem linhas intatas, custa dinheiro para usar a força ou telecomunicaçōes, entāo é importante conservar. Por horas e horas, as pessoas que estāo na espera, ficam sem acesso à televisāo, internet, ou pessoas com as quais bater um papinho no telefone.

Tenho amigas que estavam no último ano de universidade quando tiveram que fugir da casa de madrugada. Sendo que sairam com pressa e em pé, elas nāo puderam levar os livros escolares com elas. Já é mal ter que quitar a universidade no último ano, mas pior ainda é ter que desistir completamente de ler!

Tédio.

E o que acontece quando as pessoas ficam entendiadas? Bem, o pior das hipóteses é que pessoas ficam agitadas e decidem participar na batalha. Infelizmente, isso acontece frequentemente.

Mas a coisa mais interessante que observei é que muitas pessoas que conheço se transformam em criaturas noturnas. Com nada a fazer, dormem de manhā. Aí nāo dá sono a noite entāo ficam acordadas até tarde. Finalmente adormecendo tarde, nāo tem porque pôr o alarme entāo dormem até mais tarde ainda no próximo dia. E assim, acabam dormindo mais tarde ainda a noite. Tāo tāo mal para a saúde, tanto física quanto emocional.

Mas o melhor das hipóteses é que laços de família ficam mais fortes. Irmāos e irmās, avôs e filhos, até vizinhos, reavivam aquela tradiçāo antiga de simplesmente falar um com o outro.

Como é esquisito este nosso mundo. Se você estiver lendo isso, peço que dê uma oraçāozinha por sírios que estāo entediados à ponto de loucura durante essa temporada de espera que parece nunca acabar?

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Ela fugiu, viu coisas terríveis, está sem nada pra fazer… mas tem alegria

Sentamos na sala espaçosa, mobiliada somente com os colchões que lhe foram doadas por igrejas na Europa, através de uma igreja local… e o aquecedor que a igreja recentemente deu a ela, graças a fundos bilaterais que, como é típico, foram processados mais devagar do que Deus processou o tempo – era de rir que ela finalmente tinha aquecedor na casa no final do inverno. Mas mesmo assim, ela tinha orgulho e prazer nele.

Ao ficar sabendo que eu morei na Síria, trocamos histórias sobre Damasco, onde morei, e Homs, de onde ela vem. Ela alistou quais partes de Damasco ela havia visitado e gostado. E eu contei sobre quais partes de Homs e as vilas ao redor que havia visto e como tinha curtido a visita.

Aí ela jogou as duas mãos no ar, soltou uma risadinha, e disse, “Rah.” O que quer dizer, “Saiu.” Tradução: o bairro dela foi bombardeada até sobrar nada, nada. Se foi. E literalmente não há nada à qual ela possa algum dia voltar.

Me sentindo desajeitada, queria mudar de assunto a algo mais leve, mas que assunto leve existe para uma mulher como ela, mãe de muitas filhas, todas tendo dificuldade dormindo a noite não por causa da trauma que sentem com aquilo que viram – o que é muito mais do que qualquer moça jamais deve ter que ver – mas porque estão entediadas morando nesta casa alugada na periferia de uma cidadezinha rural que contém nada a não ser quatro colchões, um aquecedor para a sala, e mais alguns ítens doados pela igreja. As meninas ficam acordadas a noite toda batendo papo ou assistindo bobagem na TV (televisões são ubíquos em casa alugadas árabes), aí dormem o dia todo.

Mais uma vez ela jogou as mãos pro ar e disse, “O que podemos fazer? As meninas estão sem o que fazer.” E ela pegou o bule de chá e começou a re-encher nossos copos. E ela riu quando dissemos que já havíamos tomado o suficiente, aí fez piadinha sobre como a hospitalidade árabe não deixa um copo só desse jeito, e que realmente não se pode tomar chá demais! E eu comentei que senti falta de chá sírio, e em resposta ela sorriu de orelha a orelha.

Ao tomar um golinho da copo minúscula de vidro, ponderei o sorriso dela que não sumia. Tudo bem que ela podia estar ignorando a realidade, ou tentando parecer forte por causa das filhas, mas ao meu parecer, o sorriso era genuino. Senti que esta é uma mulher forte, quase que impérvia aos pesadelos que ela havia vivenciado.

Aí ela virou para mim e perguntou, “Quando você morou na Síria, você jamais imaginou que isso pudesse acontecer?”

Respondi que não, nunca, de jeito nenhum.

Em seguida, a conversa se virou à questão de religião, e descobri que ela é uma muçulmana super-devota. Ela tem orgulho da religião. Ela nunca estudou depois do primeiro grau, mas o marido dela obteu uns livros de jurisprudência islâmica e ela se ocupa os lendo. Suas filhas também leêm. O islamismo dela não me interessa nem um pouco – me parece ser muito rígido e dirigido por regras e, bem, enfadonho.

Mas creio que existe um vínculo entre a fé no nosso coração e a alegria que se expressa na nossa face, então ao ouvir ela falando sobre o que acredita, estudeu a cara contente dela com curiosidade. Como conseguia ela continuar sorrindo? Como pode uma expressão tão depressiva do Islamismo lhe dar esperança? E pelo que poderia ela ter esperança? Mas, pelo menos pelo bem da filha dela, eu tinha apreciação pelos sorrisos e pelas brincadeiras Ao nos despedirmos, disse a ela e às filhas, com toda sinceridade, que foi uma oportunidade feliz para mim ter as conhecido.

p.s. Gosto de incluir fotos em todos os meus posts aqui em CulturLaçadas, mas estou faltando. Não teria sido apropriado, por exemplo, tirar uma foto dessa linda mulher e sua família, nem da casa delas. Então, os próximos posts sobre o meu tempo com sírios na Jordânia talvez sejam um pouco menos coloridos…

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Amor – o preço de amor por família

Imagina que você está em casa. Acaba de jantar bem, a casa é aquecida e o seu lugar no sofá é bem quentinho, você está vestido de pijama confortável. Talvez tem filhos que estāo brincando na sala, ou talvez você esteja batendo papo com amigas. A vida é boa.

Agora, imagine sua família, seus parentes. Estāo aonde? Estāo em outro país, acampados no quarto de visitas de um parente quase desconhecido? Lutam para poder comprar combustível para aquecer a casa ou até pāo para comer? Eles acabam de fugir da casa de madrugada, pois bombas caíam perto demais de casa?

Esta semana, passei a tarde com uma amiga que realmente tem uma vida boa. Tem casa, comida sobrando, e dois filhos que sāo uma gracinha e sāo saudáveis e tem amiguinhos legais. Mas os pais, irmāos e irmās dela – toda a família com a exceçāo dela e do marido e filhos – estāo na Síria. Há dois meses, a família teve que fugir da casa e deixar tudo por trás – agora estāo refugiados na casa de um tio num bairro que – até agora – continua relativamente seguro. A família dela tem um lugar muito, mas muito mesmo, especial no meu coraçāo, mas para ela, sāo o sangue dela.

Me preocupo com eles. Quando visitei minha amiga, tive o privilégio de conectar o Skype no meu computador e ligar para a família dela em Damasco. Pela primeira vez em mais de um ano, ela viu os rostos das irmās. Juntas, vimos eles todos falando e lutando para se encaixarem todos no pequeno espaço do vídeo do computador. Juntas, vimos que eles continuam vivos. Completamente vivos.

E juntas vimos que estāo magros, muito magros. Me preocupo com eles pois combustível para aquecer a casa é além daquilo que eles podem financiar, porque deixaram todas as suas roupas quentinhas lá na casa da qual fugiram, e porque estāo magricelos e tenho medo que nāo estejam comendo.

Mas a irmā deles, a única da família que tem casa e comida e aquecimento… tento imaginar o coraçāo dela. O amor dela por eles transbordou ao implorar que virassem a câmera ao pai dela para que ela pudesse ver o rosto quieto dele por um minutinho só, ao agarrar a filhinha de 5 anos e mostrar, com orgulho, à avó como a menina cresceu. O amor dela transbordou ao chorar lágrimas de alegria em ver todos vivos, ao fazer piadinha de como estavam magros, ao levar o laptop alegre ao marido para que ele também pudesse cumprimentá-los. Mas o amor dela também transborda todo dia com preocupaçāo. Estāo seguros e longe de perigo? Estāo comendo? Há pouco que ela pode fazer além de se preocupar. Ela nāo tem palavras para orar.

Me senti tāo privilegiada em poder participar dessa ligaçāo no Skype. Ao entrar na vida da família deles, eu também sinto amor por eles, mas também me sinto inútil. O que posso fazer ao longo de fronteiras internacionais? Amor é sobre aquilo que fazemos, nāo só sentimos, mas existe pouco que podemos fazer além de orar e ligar o vídeo no Skype.

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Rapazes supurando – Refugiados sírios na Jordânia

Outro dia, tive o privilégio de sentar e conversar com alguém que trabalha com refugiados sírios. O projeto dele providencia atividades educacionais e sociais a jovens sírios. Fiquei admirada quando ele me disse que sua maior preocupaçāo é o futuro dos rapazes.

No campo de refugiados na Jordânia, e em bairros onde moram muitos refugiados sírios, existem vários programas para crianças com menos de 12 anos de idade: atividades sociais, “espaços amigáveis a crianças” (lugares seguros para crianças brincarem), e escola a frequentar.

Também existem vários tipos de programas para as moças – na verdades, essas atividades sāo oferecidas a todas as mulheres que nāo estejam ocupadas demais assegurando a sobrevivência dos filhos, ou cujas famílias nāo se preocupem demais com elas. (No campo, pelo que entendi, as famílias das meninas nāo estāo deixando elas sair jamais da barraca. Já que a vida no campo de refugiados necessita vivenciar a proximidade de pessoas estranhas, é difícil ajudar as meninas a preservar sua dignidade: moços e solteirōes estāo hospedados na barraca vizinha! Entāo muitas famílias nem deixam que suas filhas saiam jamais da barraca.) Porém, SE a menina puder sair, nāo falta coisa pra fazer. Existem aulas de costura e tricô, existe escola a frequentar (apesar da escola também servir a meninos, de fato o índice de meninas frequentando é muito mais alto), e tem leituras do Alcorāo nas quais podem participar.

Young teenage Syrian guys cheering Brasil to victory in a World Cup past. Now THAT is a meaningful activity...

Jovens sírios torcendo pelo Brasil numa Copa do Mundo de anos passados. ESSA sim é uma atividade que tem valor…

Por outro lado, os rapazes… bem, muitas vezes parece que os meninos tem uma atividade só: ficar parado por aí fazendo nada, junto com outros rapazes. Eles tem amigos sim, e os amigos passam tempo juntos. Mas eles ficam por aí no meio do campo e batem papo. Estāo a busca de distraçōes, e as coisas que decidem fazer muitas vezes sāo delinquentes. Nāo tem nada bom pra fazer? Vamos roubar algo. Vamos molestar aquela moça aí. Vamos voltar à Síria e lutar na guerra.

A maioria desses rapazes agora sāo chefes de suas famílias. Seus pais ficaram na Síria para proteger a propriedade, ou continuar trabalhando a terra, ou lutar. Esses meninos vieram com a māe e irmāos. Eles nāo estāo prontos para ser homens, e na verdade no campo tem pouco a se fazer para cuidar da família: comida e abrigo é providenciado, e trabalho quase nāo existe para quem nāo for empreendedor e montar o próprio pequeno comércio. Entāo rapazes sírios vivendo como refugiados muitas vezes sentem muita pressāo para serem responsáveis, mas sem exemplos a seguir. Eles nāo sabem o que fazer consigo próprio.

As meninas no campo já disseram muitas vezes aos trabalhadores de assistência humanitária, que desde que se tornaram refugiados, os meninos das suas famílias sāo mais agressivos, mais violentos, mas agitados. Vivendo num espaço pequeno com nada pra fazer mas muita responsabilidade… sim, acho que eu também devo me preocupar com os rapazes.

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Jordânia, terra de refúgio

Jordânia. A primeira coisa que me disseram ao chegar na Jordânia foi que, desde a época da Bíblia, existe uma promessa por este país que seria um refúgio, lugar de segurança e abrigo pelos outros.

A Palestina fica ao oeste da Jordânia. Desde que Israel foi oficialmente reconhecido como naçāo em 1948, conflito pervade a Palestina, às vezes muito às vezes pouco. Sempre que o conflito piorar, mais Palestinos vem à Jordânia morar neste país, até que sāo mais ou menos 4 vezes mais jordanianos de origem palestino, do que os jordanianos de origem na própria jordânia.

Ao leste da Jordânia, encontramos o Iraque. Desde a guerra entre Irā e Iraque nos anos 1980, iraquianos fugiram à Jordânia. Ambas as guerras do Golfo foram motivo de um grande aumento na populaçāo iraquiano na Jordânia, apesar de que, diferente dos Palestinos, a maioria dos iraquianos eventualmente receberam o direito de residência permanente em outros países do mundo, ou entāo voltaram ao Iraque.

À norte da Jordânia fica a Síria. O número de sírios atualmente na Jordânia é cerca de meio milhāo, o que representa um aumento de uns 20% somente desde o começo deste ano. As estimativas sāo de que dentro de um ano, um milhāo de sírios estarāo morando na Jordânia – isso representa mais ou menos 15% da populaçāo enteira da Jordânia.

E a Jordânia continua em paz. Tudo indica que o governo continua estável. Pobreza existe, e muito, mas poucas pessoas estāo morrendo de fome. Além de refugiados de países vizinhos, muitos trabalhadores vieram do Egito, das Filipinas e de vários outros países para morar na Jordânia, em busca de uma vida melhor.

E a Jordânia continua em paz. Estou sentada na sala de alimentaçāo num shopping chique, na capital Amā ao escrever estas palavras. Estou cercada por famílias curtindo tempo juntos, por jovens se divertindo juntos sem os pais por perto. Todas as tecnologias modernas sāo disponíveis nas lojas de produtos electrónicos, e todas as marcas mais chiques de roupas se encontram nas lojinhas. Mesmo admitindo que a maioria de jordanianos nāo tem recursos para comprar essas coisas, suas ruas me dāo certo conforto em nāo ter mudado nos 4 anos desde minha última visita, assim como as comidas e o valor da moeda e o modo de vestir nāo mudaram. A Jordânia continua em paz.

Que Deus abençoe a Jordânia e que a Jordânia continue em paz por muitos, muitos anos.

Amman, Jordan, as seen from the bedroom where I'm staying

Amā, capital da Jordânia: a vista do quarto onde estou hospedada

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Tur do Mundo – ao Estilo Gagnam!

E aí, você já descobriu essa nova coisa de “estilo gagnam”? Eu não sou muito fã, mas a cada semana, parece que mais alguém posta no Facebook um link para algum vídeo com música “gagnam” e música de outro estilo. Parece que esse rítmo coreano esquisito combina com todo tipo de dança do mundo!

Só pra me diverti, e já que este blog diz ser sobre unir as culturas do mundo – mesmo se for através de música coreana péssima e dança maravilhosa de outra parte do mundo – decidi que CulturLaçadas deve apresentar uns vídeos de YouTube com vários estilos de dança apresentados ao Gagnam. Você conseque assistir esses sem a música dar náusea por completo?

Começo com o que é, naturalmente, meu predileto: Debke Árabe! Debke é uma dança típica para casamentos ou festas no Oriente Médio, e a música debke não tem nada a ver com isso.

Em seguida: dança africana, da Costa do Marfim na costa ocidental da África. (Na verdade, tinha uma dúzias de vídeos no YouTube disso. Este aqui é um exemplo só.) Mas por favor… assiste PELO MENOS até a entrada das mulheres – elas são incríveis!

Finalmente, sou muito fã de música e dança Bollywood. É felicidade total. Então, eis u m de muitas interpretações de Bollywood. Não parei de sorrir ao assistir isso.

Existem mais, muito mais, que poderia apresentar aqui, mas acho que já chega. E espero que você não odeie CulturLaçadas depois de suportar isso!

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