Os Jogos Vorazes e a Síria

Nesse último final de semana, assisti o filme Os Jogos Vorazes. Sei que atrasei pra ver, mas sabia que seria muito intenso então queria estar bem preparada, e uma gripe das piores me pegou então tinha muito tempo para ficar deitada.

Hoje em dia, a maioria das coisas da minha vida me lembram da Síria, e isso inclui Os Jogos Vorazes.

Bem do começo, o filme capta um mundo em que a vida é uma luta constante. Difícil. Pesada. Absolutamente cansativa. As crianças são criadas com pouca esperança e muito medo. Vivem uma vida em que a verdade é que a sorte era “sempre no favor deles” – pois quase todas essas crianças iraiam sobreviver o medo e viver uma vida efadonha mas pacífica.

Sofro em pensar assim, mas confesso que isso me lembra a Síria de antes da crise. Não tinha muita esperança no país. Tinha bastante medo. Mas em geral, uma vida previsível e até contente era o futuro da maioria das crianças sírias.

Na “Colheita” anual, em que um menino e uma menina de cada “Distrito” seria escolhidos para representar o distrito nos “Jogos Vorazes” anuais, um evento em que jovens lutaria até a morte, apresentam um filme de propaganda militar. Esse filme serve para lembrar o povo que antigamente viviam em guerra e caos, mas agora vivem em paz, e que devem então sentir uma imensa gratidão às autoridades pela estabilidade que agora curtem. E, como resultado dessa gratidão, precisam sacrificar um menino e uma menina a esses jogos assassinos. A estabilidade que era a Síria por muitos anos também era uma troca: não questione e vivem em paz.

A essa altura do filme, comecei a sentir uma forte esperança que os jovens escolhidos, as personagens principal, desafiariam o status quo. E durante algumas cenas, parecia mesmo que serviriam como a inspiração de uma revolução em tais Distritos. Mas não aconteceu.

Não – quando os Jogos Vorazes começaram, as crianças aprenderam a lutar e a matar, e se tornaram brutais, crueis. O que me aquebrantou o coração, e até evocou lágrimas ao pensar na Síria, era o fato de que foram os adultos que inspiraram as crianças a serem malvadas. Os adultos os ensinaram a lutar e os lembraram que só poderiam ser vitoriosos se matassem outras crianças. Como pode a liderança de um país, ou até de uma milícia da oposição, preparar – intencionalmente – crianças a mutilar, assassinar e torturar?

Mas é isso que fazem. Eu nunca quis acreditar, mas fazem. A Síria não é o único lugar no mundo que já morei que tem crianças-soldados, mas é o único lugar em que eu conhecia essas crianças antes de se tornarem em soldados. Eu via que tinham promessa, potencial. Os vi dando risadinha, brincando nas ruas e abraçando as mães.

Em Jogos Vorazes, eu queria tanto que as crianças resistissem. Queria que os milhões de pessoas assistindo os jogos ficcionais na televisão tomassem inspiração das crianças que fizeram A Coisa Certa. Mas os concorrentes são, no final das hipoteses, crianças normais. E é difícil desafiar o poder.

Na Síria, tem possoas resistindo, lutando pela paz e contra a violência e trabalhando pela cooperação. Me sinto honrada em ter conhecido algumas dessas pessoas e sinto grande inspiração pela coragem delas. Mas são poucas, e o tsunami que resistem é enorme.

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