Lamento pela Cham

Com cada dia que passa, me sinto mais e mais longe da Síria. Mas continuo com amigos muito caros lá, e me sinto privilegiada em poder manter o contato com eles quase diariamente. Eles são tão amados, e são meus heróis. Mas aqui no conforto de Londres é difícil entender, de verdade, a realidade deles. Então talvez eu agora tenha distância o suficiente para começar a escrever um tributo aos sírios que continuam a me inspirar, mais e mais. Talvez o seguinte será o começo de um novo livro!

Leila pegou o telefone da mesa e procurou o nome da amiga com um número libanês. Pressionou o botão verde e bateu as unhas na mesa ao esperar.

Depois de quatro toques, Maha atendou, “Querida Leila! Como vai você? Senti saudades!”

“Eu também! Como vai?”

Mas ao invés de continuar com os cumprimentos típicos, Maha retornou com silênciou.

Então Leila foi falando. “Vi o seu post no Facebook. Que Deus tenha misericórdia nas almas deles.”

Maha deu uma risadinha. “Sabe o que encontraram no cascalho? A casa enteira destruida, mas o televisão continuou em pé com aquele doile bordado pela vovó em cima. Minha mãe sempre quis jogar aquela coisa fora por ser tão velho, e é a única coisa que sobreviveu!”

Leila participou com a Maha em alguns minutinhos de gargalhadas. O que mais pode fazer quando se fala com uma amiga cujo pai e irmão mais jovem foram mortos por um bombardeamento qualquer? Com essa pequena alegria passando, Leila começou a perguntar das coisas práticas: “E a sua mãe, vai fazer o que? E você vai voltar à Síria pro velório?”

“Ha tempos tento persuadir os meus pais a virem ficar no Líbano com a gente, desde o começo venho implorando. Mas a Mama realmente não quer sair. Diz que é a terra dela e se todos os cristãos fugirem da Síria, então bem que poderíamos simplesmente dar de presente pros islamistas. Então vai a Damasco ficar com a minha tia, você lembra dela? Graças a Deus, até agora, a região de Bab Touma em Damasco continua segura.”

“E você?”, incitou Leila.

“A Mama disse pra não vir, que é perigoso demais. Bobagem pois vou a Cham sempre com o Samir, mas parece que Sednaya agora é completamente fechada então não daria para voltar para casa mesmo. Imagina? Não vou nunca me despedir do Baba nem meu irmãozinho caçula. Ele estava pra começar o segundo grau, sabia?” Essas últimas palavras foram soltadas em golpinhos, como se a Maha estivesse se forçando a segurar as lágrimas.

“Ma sha’allah. Deus cria e é o homem que retira.”

Leila não havia escapado a perda por enteiro. Graças a Deus, sua família imediata estava segura, apesar de estarem morando num campo no deserto da Jordânia, em uns abrigos que pareciam contêiner de transporte, doados por uns homens de negócio ricos da península arábica. Pelo que todos sabiam, a aldéia deles nem existia mais, apesar de que há meses ninguém pôde transversar as várias frontes para visitar as terras deles. Dois dos seus tios e vários primos haviam se afiliado ao Exército Sírio Livre logos nos primeiros meses, e a maioria já foi morto no conflito. Porém, um dos seus primos havia se desempenhado bem, se mostrando ser um craque em guerra, e já era oficial do ESL. Leila insistiu em jamais falar com ele.

Tinha pouco mais a dizer sobre esse assunto difícil, então Leila perguntou, “Como vai Samir?”

Até de longe na linha telefônica, Leila tinha certeza de que senti a Maha se relaxando ao mudar de assunto. “O meu marido é incrível. É meu herói. Todos se preocupam comigo quando viajo – e bem que eu também sinto medo. Mas Samir, ele já foi detido várias vezes! Mas continua vindo e voltando entre Damasco e Beirute. Diz que não pode parar enquanto existem pessoas sem comida a comer. Está aqui em Beirute no momento, graças a Deus. Vou continuar viajando com ele, existem tantas mulheres em Cham que precisam de alguém para sentar com elas e ouví-las. E além disso, me assusto menos em viajar com o meu marido do que enviá-lo sozinho a um lugar perigoso. E, bem, ele tem razão. Não pode parar enquanto existe necissidade.”

“Então você quer dizer que ele é louco.”

“Quero dizer que ele é homem de Deus.”

Leila acenou com a cabeça e sorriu, aí considerou que Maha não podia ver os sorriso pela linha telefônica. Não queria que sua amiga entendesse mal, então repetiu a frase com a qual deu fim à maioria das conversas com Maha hoje em dias: “Vocês são demais.”

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