Hoje testemunhei uma briga, e isso me deu esperança

Hoje meu colega e eu finalmente nos aventuramos às famosas Ilhas Príncipe, uma saída perfeita da cidade num final de semana. Uma hora numa balsa nos levou para longe da cidade – só que ainda dava para vê-la de longe – e a uma praia de pedras, morros altos e a proibição de veículos motorizados. Fuimos à ilha #2 na rota da balsa: Burgazada. É 1.5 kms quadrados, uma parte coberta por uma antiga aldéia e o resto marcado por um enorme morro desolado que subimos. O dia ensolarados era um pouco cansativo, mas sem dúvida valeu a pena por poder escapar um pouco a intensidade da vida no centro de uma cidade de mais de 13 milhões de habitantes.

That's me climbing down the hill. Village at the bottom to the right. Istanbul across the water in the distance.

Sou eu descendo o morro. A aldéia fica abaixo à direita. Lá em frente, no outro lado da água, é Istambul.

Pegamos a balsa das 17:10 para voltar. Era uma hora preferida por muitos e o barco estava prestes a estourar com tanta humanidade o enchendo. Tivemos sorte em encontrar lugar para sentar, mas à custos de ter que sentar numa sala interior apesar do tempo estar lindo, e quase nem conseguir ver o Mar Marmara pelas janelas.

Justo quando partimos da última ilha na qual a balsa recebeu passageiros, antes de voltar à cidade, ouvi um movimento e levantei os olhos. Uma mulher de uns 40 anos estava irritadíssima com um homem que poderia ter uns 5 anos mais do que ela. Ela tinha um menino adolescente com ela, imagino ter sido filho dela, e ele segurava um curativo na bochecha. O homem estava com a família enteira, entre os familiares uma moça de uns 15 anos. Os dois gritavam, mais e mais alto. Não entendi nem uma palavra do turco louco que falavam, mas entendi muito bem a emoção.

O intensificar a briga, o menino tentou abraçar a mãe dele. Ela o largou e continuou brigando, ficando em pé e jogando as mãos pro ar. O menino também se levantou e sussurrou algo no ouvido dela, tentando acalmá-la com sua mão livre. Por um momento largou o curativo na bochecha e vi que algo ainda sangrava. Isso tinha algo a ver com a briga? Achamos improvável, imaginamos que brigavam sobre seus assentos num barco sobrecarregado.

A mãe dele não se consolava, e ela se aproximou um pouquinho do homem e levantou a voz mais ainda. Enquanto isso, a moça seguiu seu pai que se levantou e pegou os ombros dele nas mãos dela, delicadamente. Mas ele ignorou e jogou as mãos da filha pro ar. Os dois adultos se aproximavam. Parecia possível que estivessem prestes a bater um ao outro.

Mas o menino entrou em frente da mãe e não a deixou se aproximar mais do homem. A moça se pôs em frente do pai e não o deixou se aproximar mais da mulher. Depois de uns segundos, ela pegou o braço do pai e o puxou, levando ele a outra sala onde poderia se acalmar. O menino puxou a mãe para sentar com ele, e deitou a cabeça no ombro dela.

Briga nunca é agradável de se ver, mas fiquei animadíssima em testemunhar dois adolescentes confrontando seus pais em prol da paz. Passei um bom tempo ao longo da viagem de balsa ponderando se jovens em geral são mais pacíficos do que adultos, ou se essa nova geração que logo serão os adultos do Oriente Médio é uma geração que tem paixão pela paz.

E lembrei que não era essa a primeira vez desde que cheguei na Turquia em que testemunhei briga entre pessoas de cabelos grisalhos (ou quase), separados por alguém mais jovem. Me lembrei dos manifestantes jovens em Istambul que, pela maioria, insistem num ativismo não-violento. Meu colega e eu consideramos alguns motivos pelos quais era possível que uma geração esteja surgindo nesta região, que parece explodir com qualquer faisquinha. Seria a Internet que os deu outro meio de se expressar, ou seria a Globalização que ampliou sua educação a incluir outros diversos valores?

Não faço idéia se tais teorias tenham peso, mas a visão daquele menino persuadindo sua mãe a ser um pouco menos argumentativo, e daquela moça encorajando o pai a escolher a opção com menos confronto… isso vai permanecer parte da minha consciência. De tudo que vi nesses últimos meses, isso provavelmente é a maior fonte de esperança.

Straining over the heads of the other ferry passengers to get a shot of Istanbul (photo credit goes to the housemate - i wouldn't have even tried. But the setting sun is still lovely, eh?)

Na balsa lotada, tentando fotografar a cidade de longe acima das cabeças dos outros. (crédito ao meu colega – eu nem teria tentado. Mas a refleção do sol que se põe é linda, não é?)

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