Como pode a humanidade…?

Estava agora lendo meu feed de twitter e fiquei sabendo sobre um atentado em Benghazi hoje. Para ser exato, num hospital em Benghazi. Estão avisando que pelo menos 2 crianças perderam as vidas.

Mas é difícil para mim reagir com o nível de intensidade que uma notícia como essa merece, pois há somente dois dias, dois carros-bombas explodiram em Reyhanli, no Sul da Turquia. Conheço gente há poucos quilômetros dalí. Hoje falei com uma amiga que mora perto de lá e eu lhe disse, “Dou graças a Deus que não atingiu sua cidade.” E ela respondeu: “O que importa! Gente faleceu!” E ela tem razão. Mas mesmo assim, fiquei aliviada que essa gente não incluiu ninguém da família dela…

Mas até isso nem se compara com outra notícia que vi hoje: a taxa de mortalidade na Síria agora já ultrapassou de 80,000. O número de refugiados que fugiram do país é tão grande que já perdi a conta, mas posso dizer que quase 1 em cada 3 pessoas já fugiu da sua casa. Isso inclue quase todos os meus amigos lá. Dou graças a Deus que os 82,000 mortos não conta com nenhum dos meus amigos, mas me dá tremores em pensar como a morte já os aproximou de tão perto.

E começo a ponderar: Quem é essa gente? Quem faria isso!

Nenhum dos meus amigos tem sede de ver sangue; todos os meus amigos estão lutando para sobreviver, e se sacrificando para ajudar outros a sobreviverem.

E não quero conhecer essa gente. Estou contente em saber que meus amigos não constam entre eles.

Mas encaro essas notícias como se fosse um cachorro com um carro prestes a me bater. Chocada, aterrorizada, e completamente insegura de o que devo fazer. Como pode alguém tirar a vida de outro, com tanta facilidade? Que tipo de ser humano pega uma arma na mão e a aponta na cara de outro ser humano? Cadê a alma de uma pessoa que enche um carro de explosivos e aí se encaminha para longe, para assistir a carnificina que segue?

Aí vou ao serviço, onde todos nós estamos trabalhando duro para tentar ajudar a minimizar o sofrimento humano que é resultado inevitável de toda essa violência, e jogamos com política interna, fofocamos um sobre o outro, reclamamos do emprego. Tudo bem que não causemos danos físicos um ao outro, mas também não criamos nenhum refúgio para nos proteger da dor que nos cerca. Talvez façamos isso de propósito: Preferimos sentir um pouco de dor a sentir culpados que estamos seguros e contentes enquanto as pessoas que servimos estejam sofrendo tanto.

Mas no fim do dia, vejo os tweets com notícias de alta-moda, fofoca de celebridades, nova arte nas galerias das grandes cidades ocidentais, e quero escapar a esse mundo. Quero fingir que o sofrimento não existe. Não quero nem saber quem é essa gente. Porque se eu algum dia ficar cara-a-cara com um deles, o que poderei dizer? Se um combatente sírio, não importa qual seu lado, entrasse na minha sala de estar agora mesmo, o que poderia eu dizer? Se o bombardeiro de Benghazi ou Reyhanli fosse se assentar na cadeira aqui na minha frente, nem imagino o que eu diria?

Existe algo, qualquer coisa, que ele/a poderia dizer que me convenceria de que ele/a é mesmo um ser humano?

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