as ironias

Você sabia que eu sai de Cairo no dia antes dos famosos protestos da Primavera Árabe começaram lá? Participei de uma conferência lá e estava hospedada num hotel no centro da cidade – bem onde os protestos estavam prestes a dar início. Aí voltei para morar em Cairo alguns meses depois para ajudar a planejar umas programas de desenvolvimento pós-revolução. Fiquei lá durante 4 meses, e os protestos eram, ao mínimo, semanais.

Apesar de estar hospedada bem na vizinhança da Praça Tahrir, centro da ação, eu estava hospedada segura num hotel cinco estrelas climatizado com janelas que não tinham porque abrir. E assim, muitas vezes no dia após protestos, um colega que morava num apartamento de gente normal, bem na avenida principal, chegava no escritório reclamando de como o seu apartamento havia enchido de gás lacrimogêneo durante a maior parte do dia. Senti certa simpatia por ele, pois era óbvio que ele havia passado um dia miserável enquanto eu curtia o Spa no meu hotel. Mas também senti um pouco de inveja, curiosa para saber como seria estar testemunhando eventos históricos.

Também me encontrei em Khartoum, Sudão durante alguns dos protestos mais intensos do ano passado, mas era esperta: sabia que não devia sair da casa. Ficar em casa me entediava, mas sabia que estava em segurança. E pensando mais no meu passado, me recordo de que estava no Líbano uma semana antes do começo da guerra de 2006, e também estava no Oriente Médio durante a Intifada palestina e o início da guerra no Iraque – ambos eventos históricos que inspiraram milhares a sairem às ruas. Então… já me aproximei de perigo muitas ezes na minha vida, mas sempre estive longe o suficiente para evitar qualquer perigo. Até esta semana agora, passei bem perto da fronteira da Síria. Isso aí… da SÍRIA, uma fronteira bem insegura que vivenciou bastante violência nesta semana que passou. Mas eu estava numa aldéia pacífica há alguns quilômetros de distância curtindo a hospitalidade do povo lá e trabalhando duro no computador e em reuniões.

Então achei muita ironia em voltar a Istanbul numa sexta-feira ensolarada com um leve ventinho soprando pela cidade, e entrei direto no ramo de gás lacrimogêneo. Agora que passou, posso dizer com certo orgulho que já tive a experiência política de sofrer ataque de gás. Mas naquele momento, senti que estava passando pela dor mais excruciante imaginável. Cada tantinho do meu corpo ardia, quase não conseguia respirar, um cheiro podre me cercava e não consegui evitar nem com a toalha que segurei para proteger o nariz e a boca, e meus olhos lacrimejavam – o que os fazia doer mais e me deram suco de limão para passar nos olhos pois isso doía MENOS! Saiba que gás lacrimogêno é absolutamente inhumano.

Uma docura de lojista me convidou para esperar na sua lojinha arcondicionada para esperar passar, pois andar na rua era fora da questão. Com lágrimas – chorando de verdade não somente como resultado do gás – nos olhos, ela lamentou os eventos que resultaram em um bairro enteiro ser pulverizado com gás. E este é um bairro que, numa tarde de sexta, tinha centenas ou até milhares de turistas perambolando nas ruas! Pediu desculpas repetidamente e profundamente pelo seu país. E assim me apaixonei mais ainda pelo país dela.

Ao ficar seguro outra vez para sair, voltei para casa, passando uns 200 soldados subindo a rua do meu apartamento, alguns ainda carregando botijões. Ponderei o que poderia estar passando pelas cabeças deles e o que diriam às suas mães na próxima visita a casa. Tinham orgulho de ter causado tanta dor? Estavam irritados com os protestadores que os instigaram? Tinham raiva por ter sido recrutados num exército que os pediam a atacar civis? Eram tão jovens, provalvemente ainda na adolescência, e conheciam tão pouco deste mundo.

Bem, por motivos que acho que devem ser óbvios, não tirei foto nenhuma durante o gás nem depois, mas logo tive outra experiência que era bem fascinante então vou fechar este post com umas fotos… Como você talvez já esteja sabanedo, Istanbul tem a honra de transbordar dois continentes. Tem como atravessar da Europa à Ásia e aí voltar de balde, custa menos de 2 reais e demora uns 15 minutos. Muita gente faz isso como parte da sua viagem diária para trabalharo. Eu estou morando na Europa mas ontem atravessei à Ásia para visitar uns amigos. Enquanto lá, uma névoa enorme entrou – meus amigos disseram que era um evento raro. Passou rápido no lado asiático, mas pousou no lado europeu, cobrindo por exato os portos dos baldes. Então todos os baldes pararam até passar, o que acabou demorando quase o dia enteiro. Eu estava presa na Ásia! Depois de algumas horas, desisti e voltei de ônibus, o que foi uma rota longa e bem indireta passando por uma ponte enorme um pouco mais além no rio (e a ponte só tem uns 30 anos, antes disso para passar da Europa à Ásia era balde ou nada!). Mas o pessoa local me informaram que eventos como este são bem raros em Istanbul. Baldes são raramente cancelados, e névoa deste tipo específico quase nunca aparece. Então tirei umas fotinhos 🙂

I took this from the Asia side, looking at the Europe side. It was a gorgeous day on the Asia banks of the Bosphorous. But the European riverbank was a big mass of cloud.

Essa tirei do lado asiático, olhando ao lado europeu (pode QUASE ver os prédios do outro lado). Era uma dia magnífico na margem do rio na Ásia, mas a margem na Europa era uma grande massa de nuvem.

I took this photo when I FINALLY got home 5 hours later, from my flat which is high up a hill, ABOVE the cloud

Tirei essa quando FINALMENTE cheguei em casa depois de umas 5 horas, do meu apartamento que fica no alto de um morro, ACIMA da nuvem

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