A cada poucos minutos um barulhão… o dia após a operação da polícia para esvaziar Parque Gezi

Estou morando atualmente no último piso de um prédio velho numa rua movimentada próximo à famosa avenida para pedestres, Istiklal Caddesi, bem perto da Praça Taksim. No último sábado a noite, meus companheiros de casa e eu sentamos na varanda, ouvindo os gritos alegres e vendo as lanternas comemorativas flutuando da Praça. Escrevi sobre a atmosfera linda que senti naquele lugar aqui.

Este sábado passamos a noite dentro do apartamento, sentados no sofá, com todas as janelas fechadas para nos proteger do doloroso gás lacrimogêneo, mas pulamos a cada barulho ou auge nos gritos para ver o movimento abaixo na rua. Pulamos frequentemente.

E agora é domingo de manhã e as ruas estão quietas. Na verdade já passou das 13:00 ao escrever isso, mas o movimento nas ruas é mais aquilo que se imagina de manhã cedinho depois do nascer do sol. Um carro ou outro, um pedestre ou dois, poucas lojas abertas. Parece que estamos todos esperandos, curiosos para ver o que possa estar por vir.

Ontem a noite fui à Praça Taksim para me encontrar com uns amigos para jantar. Vi famílias com criancinhas, turistas falando meia dúzia de idiomas diferentes, locais de Istambul curtindo o final de semana… o movimento típico de um bairro central. Tinha muita gente por aí e, apesar de estar próximo ao Parque Gezi onde tudo começou, não tinha como ver o parque por causas das multidões. Decidimos comer e depois visitar o Parque depois.

Olha, queriamos visitar o parque porque na sexta e também na quinta à noite um pianista alemão-italiano trouxe seu piano-forte à praça ao lado do parque e começou a tocar – literalmente. Milhares de protestadores e visitas quaisquers participaram com ele em canto, cantando sobre esperança e alegria. Ele tinha planos para voltar e queríamos ver ele.

Mas, saindo do restaurante, umas senhoras na rua nos avisaram que tinha problemas afrente. Começamos a caminhar rumo Praça Taksim para ver a qual tipo de problemas elas se referiam e, antes de ver qualquer eventualidade, vimos a cara das pessoas. Nada felizes. Muitos se distanciavam da Praça, querendo fugir da ação. Outros se aproximavam à Praça, determinados. Passamos rapazes com grandes caixas de máscaras cirurgicas e óculos de ski. Parece que estavam inicialmente à venda mas quando as coisas se intensivaram, começaram a dar de presente a todos. As multidões se fecharam, a mocidade começou a bater em grades de metal para comunicar a urgência que sentiram. O rosto de uma moça tinha algum creme para aliviar a dor do gás que ela acabara de ingerir. Um moço levantou a camisa para tratar de uma corte nas costas. Sentimos no ar: essa não era uma noite feliz.

Finalmente, decidimos que já havíamos nos aproximado demais da tensão e partimos por meio de uma ruazinha lateral. Nessas ruazinhas era difícil até imaginar que tinha algo acontecendo: os barzinhos e restaurantes todos abertos e cheios de clientela. Meus amigos me fizeram o favor de me acompanhar até a casa e eu os convidei a ficar comigo se enfrentassem alguma dificuldade em voltar à casa deles. Felizmente, eles não enfrentaram mais problemas, mas imagino que se esperássem mais meia hora teriam.

Chegando em casa me instalei logo em frente à televisão. Assisti ao vivo a avenida Istiklal Cadessi, onde caminhava havia somente 15 minutos anteriores, foi ocupado pela polícia. As multidões agora corriam, a rua coberta com água das canhões de água que a polícia usava para forçar o povo a se retirar, e nuvens de gás lacrimogêneo criou um ar etéreo sobre a rua.

Mais quinze minutos passaram até começarem os gritos na nossa rua. Pulamos e vemos pela janela, jovens se reunindo na rua. Mais uns minutos e vimos uma torrente de mocidade correndo, fugindo a gás em Istiklal. Mais alguns minutos e ouvimos o que parecia um tiro. Não era arma, só o ruido de uma bolinha de gás. Mas estrondos indicavam mais conflito, mas felizmente a nenhuma vez foi usado uma arma letal. Depois no Twitter descobri que os estrondos eram nada mais que sons produzidos justamente para nos assustar. (Aliás, o piano de Davide Martellow foi confiscado quando ele estava a caminho do Parque ontem.)

Tenho grande simpatia pelos protestadores pois se organizaram tão bem, por terem um compromisso tão grande e sim porque são tão bem-educados. Essas imagens dão uma idéia de como é tão fácil gostar deles.

E também, é tão difícil para mim entender a resposta que receberam. Em casa surfando as redes sociais, comecei a juntar as peças. Já na hora em que passei por Taksim mais cedo, às 20hs, a polícia já se juntava. Às 21hs, ou seja, na hora em que o sol se pôs, a polícia entrou no parque. Conflitos entre polícia e protestadores já vinham acontecendo ao longo da semana, mas eles deixavam o parque, no qual os protestadores mais comprometidos haviam se instalados numa cidadezinha de barracas, em paz. O governo disse que deviam sair até domingo mas responderam que não iriam sair. Então às 21hs no sábado (sim, um dia antes do ultimato), a polícia, armada com capacetes e máscaras para gás e escudos entraram com força no parque. Os protestadores, a maioria dos quais são ambientalistas radicais, não tinham máscaras para se protegerem do gás. O parque se encheu de gás e os protestadores fugiram. Deixaram as barracas, sua biblioteca, sua clínica médica, tudo por trás. E a polícia autorizou a uma equipe de escavadeiras e limpadores de rua a entrarem. Eles passaram 12 horas tirando as barracas e limpando as pichações e fazendo o parque voltar a parecer que nunca aconteceu nada. Vi fotos do parque hoje de manhã – civis não podem entrar na praça hoje – e é mesmo lindo.

Mas os protestadores não voltaram para casa. Se juntaram nas ruas laterais e logo vieram mais uns milhares de pessoal para participar com eles em solidariedade. E foi aí que os ataques verdadeiros começaram, e foi essa tensão que alcançou à mina rua. E um dos momentos mais extraordinários foi quando milhares de protestadores começaram a vir, à pé, do lado asiático ao lado européu, onde o parque/praça se localizam. A polícia os bloquearam então eles deitaram no meio da ponte em paz, determinados.

Mas, terminando o meu conto, a coisa que mais me horrorizou disso tudo foi recordar que às 20hs a Praça estava cheia de famílias, pais com filhos em carrinhos, criancinhas correndo por aí. E foi mesmo que quando a ação da polícia começou, muitas famílias foram separadas. Dúzias de crianças se perderam ou tiveram dificuldade encontrando os pais.

Então, num ato lindo de solidariedade, um hotel próximo se tornou o “perdido-achado” para crianças, e também abriu as portas para pessoas feridas.

Bem, eis o qua aconteceu no lobby do hotel:

Esta é uma das fotos mais benignas que vi da entrada deste hotel. A polícia tentou entrar e protestadores formaram uma corrente humana e cantou o hino nacional turco para evitar com que entrassem, mas eventualmente foi rompido e, sim, a polícia encheu o lobby com gás. E repetiram várias vezes. O lobbe de um hotel que providenciou um refúgio para crianças perdidas e os feridos.

Creio que qualquer conflito tem dois lados, mas neste caso está sendo difícil ver a perspectiva do outro lado…

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