Semana 2: O Italiano de uma ONG com perguntas gênias

alguns pensamentos da 2a semana da minha recente viagem de trabalho

Trabalhadores humanitários podem ser caraterizados em três categorias distintas: pessoal de país doador, galera de ONG (organizaçāo nāo-governamental), e funcionários da ONU (Naçōes Unidas). Presumo que o desprezo entre nós é universal. Pelo menos, me conforto em presumir isso : eu sempre fiz parte da galera de ONG, e meus colegas e eu temos bastante desprezo pelos outros dois grupos. Entāo é completamente justo eles nos desprezarem também.

Nosso desprezo maior é reservado pela ONU. É uma burocracia tāo enorme que casa um fardo enorme de responsabilidade, com uma ineficácia que é de tirar o fôlego. Como indivíduos, seus funcionários sāo da gente mais linda entre trabalhadores humanitários, e realmente sāo uma turma impressionante, levando em consideraçāo que devem formar a instituiçāo mais diversa em termos de etnias representadas que jamais exisitiu e jamais existirá. Mas como trabalhadores humanitários, nós a galera de ONG os considera simplesemente inúteis.

Numa oficina da qual participei, vivenciei isso, sendo que nossos facilitadores – um ‘secretariado’ da ONU (seja lá o que quer dizer isso) – pediu que um grupo de ONGs sentássemos e escutássemos uma série de apresentaçōes educacionais dadas por funcionários da ONU. As apresentaçōes até que eram interessantes, mas seu conteúdo tinha muito pouco haver com nossos ambientes de trabalho e de fato nos ensinaram pouco do qual nāo estávamos já sabendo. Me senti um pouco como a professora com 20 anos de experiência participando de um curso de reciclagem dado por uma jovem de 25 anos que acaba de completar um PhD em educaçāo mas que nunca ensinou numa escola de verdade. Insulto à inteligência, sabe?

Que seja abençoado, um representante de uma ONG italiana, conseguiu através de sua própria inocência, revelar a ineptitude deles. Ele fazia perguntas honestas, perguntas simples que nāo tivessem intençōes ocultas. Mas eram tāo distantes da realidade dos apresentadores que eles nāo faziam nem idéia como responder a elas.

Um apresentador falou sobre como se pode entender tudo sobre uma situaçāo sensiva usando tal metodologia simples, a qual ele descreveu para nós. “E, deixem-me mostrar um exemplo!”, balbuciou. “Olhem só: em seis horas, geramos dez páginas enteiras de dados!” O cara italiano de ONG levantou a māo e perguntou: “Como podem saber que esses dados ajudam a situaçāo sensiva e nāo a pioram?” E o apresentador nāo fazia nem idéia o que quis dizer com essa pergunta. Mas nós todos entendemos – para nós isso é importante.

Acho que o sucesso do italiano era em grande parte devido à maneira pela qual ele se portou. Tinha cabelos grisalhos e sobrancelhas bem espessas que também continham uns trechinhos grisalhos. Fica sentado na última fileira da sala anotando tudo, mas tudo, em um caderno. E ele nos explicou que esse contexto é novo para ele entāo ele nāo entende tanto quanto gostaria. É agronomista de profissāo e sabe pouco sobre o assunto do dia. Ele nāo ameaçava a ningéum falando assim… mas sua pergunta era perfeita.

Outro apresentador nos contou sobre a estratégia da ONU para fazer deste país um lugar melhor. Outra vez, o italiano entrou com calma na discussāo, perguntando que deu palpite no desenvolver da estratégia. Pela reaçāo, foi óbviou que o apresentador da ONU nāo tinha pensado muito a respeito disso. Iiiiihh, TOMA, ONU!

E aí, mais tarde, quando a discussāo realmente ficou interessante – sendo que as ONGs finalmente tinham uma oportunidade de falar de suas experieências… embora abaixo da tutela paternalista de uma funcionária da ONU, estávamos ficando animados em falar sobre nossas idéias porém sofrendo um nível razoável de frustraçāo às māos de nossa facilitadora… o Italiano levantou a māo outra vez.

“Agora tenho muitas perguntas!”, disse, completamente ingênuo. Muitos de nós nāo conseguimos segurar as risadinhas.

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