Sírios que me inspiram – irmāo conserta-tudo. Capítulo 8

Um fato sobre a Síria: pessoas lá podem consertar TUDO. Quando morei na Medina, as dependências da Universidade de Damasco, usamos bico eléctricos e de gás para cozinhar. Essas bolotas eram criados para uso ocasional, mas nós nāo as usamos ocasionalmente. Dependemos delas para dúzias e dúzias de copos de chá ao longo do dia, e também para preparar nossas refeiçōes. E adoramos cozinhar comidas elaboradas. Entāo esses biquinis quebravam…sempre… Um bico novo só custavam cerca de R$2-4, mas minhas companheiras de quarto nāo tinham condiçōes de pagar isso, e eu nā era muito mais rica que elas. Mas fiquem sossegados. Minhas companheiras de quarto sempre sabiam consertar. Nāo importava o quanto estava queimada a corda, o quanto que vazava gás, a porçāo da tomada que havia quebrada dentro da parede… podia ser consertado.

Minhas companheiras nāo eram sírias, eram da Armênia, entāo isso talvez nāo comunique muito sobre a Síria. Mas e os carros. Carros sírios confirmavam que essa mentalidade conserta-tudo é algo que os sírios tem em comum. As táxis sírias eram, até uns 3-4 anos atrás, antigos carros que sentavam seis pessoas, 3 em frente e 3 atrás. Os carros privados nāo eram muito mais novos. Um amigo meu comprou um Range Rover do ano 1975, mas me disse que ele nāo conseguia descobrir qual, se algum, das suas partes se redatavam a 1975. Tudo havia sido consertado e/ou reposto, pelo menos uma vez. Durante três décadas, as regras de importaçāo/exportaçāo da Síria eram rígidas demais para permitir que muitas pessoas comprassem carros novos, e nāo existia indústria de carros local. Entāo, ou consertava, ou ficava sem.

Tenho uma família adoptiva na Síria, uma māe, um pai, irmāos, sobrinhos e tudo. Um dos meus irmāos adoptivos fez uma carreira de consertar coisas. E ele é bom, muito bom. Uma vez, querendo agradecer uma amiga minha que me hospedou durante muitos meses, levei ele lá para a casa dela e nós instalamos um sistema de televisāo parabólica novo. Tudo na casa deles funciona. Talvez nāo seja muito lindo, nem de luxo, mas tudo funciona.

Devo mencionar que meu irmāo ‘de verdade’ e meu pai ‘de verdade’ também sāo muito capazes em termos de consertar coisas. Mas sírios como meu irmāo adoptivo se investem em projectos que os outros achariam ser além de causa perdida. E eles nāo acham nada demais. Suspeito que exista uma conexāo entre privaçāo económica e engenho… já que eles nāo tinha como acessar produtos importados de qualidade e nāo tinham recursos para comprar muitas coisas novas, os meus amigos na Síria tinha que escolher entre consertar, ou ficar sem. Minhas companheiras arménias foram criadas em época de comunismo, e o mesmo princípio aplicava. Talvez devamos todos morar alguns anos em tais circunstâncias, se o resultado for que aprendamos a ser mais como o irmāo conserta-tudo!

(Eu nāo diria que virei craque dessas coisas durante meu tempo na Síria, mas fico contente em poder anunciar que consertei meu próprio vaso sanitário na semana passada! EBAA!)

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Um intervalo de adaptaçāo a Londres

Espera aí, como se pode ter um intervalo de algo que um tema de vida?

Tive uma progressāo interessante de eventos ocorrer na minha vida durante essas últimas semanas. Tudo bem, talvez nāo seja uma progressāo interessante de eventos, talvez eu ache que seja interessante justamente por ser notavelmente tedioso. Na minha vida, o nāo-interessante me fascina, e o fascinante me aborrece.

Uma declaraçāo assim provavelmente merece mais consideraçāo, nāo é? Por agora, pode simplesmente crer: é verdade. Sou fascinada por coisas que geralmente sāo consideradas mundanas, e às vezes acho que coisas exóticas e interessantes sāo enfadonhas.

Mas entāo.

Hoje deveria estar voltando de uma viagem de duas semanas de trabalho. Nunca viajei, e só fiquei sabendo que a viagem seria cancelada poucos dias antes da partida prevista. Os primeiros dias depois da cancelamento, senti que estava numa bolha de ar, flutuando sem rumo. Tinha um bocadāo de tempo vazio, completamente sem agenda! O que faria comigo? Acabaria comendo meus olhos de frustraçāo com o quando ficara minha vida sem trabalho? Temi que ficaria, entāo comecei a marcar várias coisas para encher o tempo. Aí percebi que essa seria a primeira vez que pudesse ter para curtir mesmo essa têmporada de “calmo”, por poder, mesmo, viver com um pouco mais de calma. Desdi que vim a Londres, corri de uma aventura a outra: um projecto intenso de trabalho, comprar uma casa, viagem longa a trabalho, prazo de entrega de livro… Umas semaninhas de “folga” nāo seria o meu fim, talvez até fizessem algo de bom!

Entāo durante uma semana toda durmo até tarde toda manhā. Isso quis dizer uns 15 minutos a mais do que teria normalmente dormido. Rs. Mas a cada manhā curti um tempo lindo de leitura, passando um tempinho lendo a Bíblia e outra literatura espiritual que nem sempre tenho tempo para ler. Foi lindo, e aprendi muito.

Mas chegando no final daquela semana, estava queimada mentalmente! Meu cérebro havia trabalhado demais durante minha semana de “folga”. Ao mesmo tempo, havia começado a trabalhar no meu podcast, entāo a vida estava de fato meio corrida, para falar a verdade.

Aí o prédio em frente o meu pegou fogo. Estava andando para casa e senti o cheiro de fumaça e vi os carros de bombeiros, e temi que era eu que havia assassinado meu lindo apartamento. Já. Estou mais ou menos chegando no ponto de 4 meses de residência, e vai ser a primeira vez que moro em algum lugar por mais de 4 meses (em muitos anos), entāo me parece que dever ser mesmo a hora de algo dar errado. Mas nāo, foi o prédio em frente o meu, e o fogo foi causado por alguém criar canabis no seu apartamento. Eu nāo estou criando canabis, entāo espero que isso signifique que eu nāo tenha que me preocupar. Cheguei em casa e comecei a consertar o meu vaso sanitário, como se fosse a atividade mais normal que existisse.

imagem contribuida pela minha associaçāo de moradores ;)

No próximo dia, meu cérebro estava tāo frito, minha alma tāo desgastada de UMA SEMANA ENTEIRA DE FOLGA, que nem consegui preservar sequer um pensamento por mais de 20 segundos. Assisti três filmes um após o outro, algo que duvido que tenha feito desde o segundo grau.

Aí fiquei resfriada. Geralmente eu fco resfriada quando estou trabalhando demais, nāo quando estive tomando tempo extra para dormir a cada manhā.

No meio-tempo, tive minhas primeiras consultas com a minha médica, fiz exame de sangue, e marquei consulta com especialista. Isso tudo me parece muito calmo e estabelecido. Estou planejando ir logo num retiro para restauraçāo espiritual. Uma amiga vai se casar logo depois. Nenhuma dessas coisas me parecem simbolizar adaptaçāo a Londres, mas me parecem mais como “vida real” do que eu senti há muito tempo.

Isso para mim, é bem interessante. Ainda nāo me sinto capaz de segurar um pensamento por mais de 40 segundos (sim, é uma pequena melhora), só mesmo se tiver haver com meu podcast.

Mas quando vocês lerem isso, eu já estarei me preparando para tirar uma semana de férias, desta vez viajando para uma terra linda em outro hemisfério que chamo de casa. E os próximos meses devem ser bem corridinhos. Tudo isso, para resumir, me leva à conclusāo que “adaptaçāo a Londres” talvez tenha chegado num planalto, uma paradinha antes de continuar, será?

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Podcast “Sonhando na Medina” está vivo!

Amados amigos, sei que esta semana que passou em CulturLaçadas foi meio quieta.

Estive animada e preocupada demais durante esses dias montando meu novo projeto, e agora está vivo! Sonhando na Medina, um conto de juventude e paixāo numa época de inocência na Síria, está agora sento transmitido em audio como podcast, em 2-3 pedacinhos a cada semana. Estarei postando um capítulo por semana, cada um em mais de uma parte. Os episódios duram, em média, de 10 a 20 minutos cada.

Até agora, tenho recebido palpite bem positivo, mas a maioria disso vem de parentes, entāo talvez deva esperar mais opiniōes.

Por favor, ouça, me dê palpite honesta, e fale para um amigo. No momento, tem como se inscrever por feed RSS, ou por email (amos os links se encontram na coluna à direita do site). Entreguei o pedido a iTunes entāo espero estar alistada lá logo, também!

Eis uma foto de mim, lhes convidando para entrar no meu quarto, na época em que eu morei na “Medina”, onde a história se transpira:

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Sírios que me inspiram – Sr. Kamal. Capítulo 7

Hoje quero escrever sobre um homem que conheci na Síria que me inspirou, mas percebi agora que ele realmente é um tipo único. Isso quer dizer que há pouco que eu poderia falar a respeito dele que seria anónimo.

Entāo isso vai ser curtindo. Ele era um homem de carreiro com certo nível de sucesso. Havia avançado no seu trabalho, aos poucos pelas fileiras de burocracia. Ele tinha pouca chance de chegar ao topo da pilha, mas teve bom êxito numa subida sistemática.

Quando eu o conheci, ele tinha chegado ao nível de gestāo, uma posiçāo relativamente alta. Um emprego que mercai bastante respeito. Ele certamente chegara na segunda metade de sua carreira, com cabelos grisalhos e filhas adultas. Sei que recebia um salário bom, provavelmente mais do que eu jamais receba em um ano. Entāo nāo creio que ele fez o seu trabalho de mera bondade do coraçāo. Ele o fez porque era mesmo um bom emprego.

Mas ele o fez, e isso tem que significar algo. Quando eu o conheci, ele tinha assumido um cargo em que ele tinha que defender mulheres e se dedicar ao apoio à mulher. Achei esquisito, ainda mais pois sua equipe enteira (ainda que admito ter sido uma equipe minúscula), só tinha homens. O que podem os homens entender sobre as necessidades de mulheres? Falei para ele, bem directo, que eu nāo acho que os homens sabem muito das necessidades de mulheres.

Mas poucos dias depois, uma mulher, uma das mulheres que ele servia, me disse que ela ficava contente no fato de um homem ocupar o cargo dele. Ele deu uma certa credibilidade à causa. Se uma mulher se levantar dizendo que quer apoiar mulheres, você dá uma revirada dos olhos e pensa que, claro que uma mulher quer ajudar outras mulheres. Se um homem se dedicar a ajudar mulheres, você o leva a sério.

Claro, ele tinha uma pequena base de fās, e era uma gracinha ver ele como se no trono cercado por mulherezinhas. Mas acho que ele realmente acreditava naquilo que fazia. E ele era trabalhador, levando muito a sério sua responsabilidade para ajudar mulheres.

Entāo, homens, pensem a respeito. O que vocês poderiam fazer para ser mais como o Sr. Kamal? Infelizmente, vivemos em um mundo onde as mulheres precisam de ajuda, simplesmente por ser mulheres. Quando as mulheres tentam ajudar, criamos uma realidade separada, ou as pessoas nāo nos levam a sério, ou nos tornamos feministas que queimam as sutiās (ou pelo menos somos acusadas por ser assim). Talvez se mais homens fossem mais como o Sr. Kamal, todos nós nos daríamos bem juntos e curtiríamos a vida juntos?

Esta arca fica na "Rua Chamada Direit" em Damasco... o lugar famoso da históra do Sāo Paulo

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Sonhos na Medina… um novo Podcast para você

Se você segue minha jornada há muito tempo, você talvez se conscientize de certas coisas sobre mim:

  • Amo Síria.
  • Amo escrever.
  • Melhor ainda, amo escrever sobre Síria.

Ainda mais, escrevi um romance sobre a Síria, mas logo depois comecei a perambular o mundo e nunca parei para publicar o romance. Agora, a Síria virou um enfoque da mídia. E meu romancezinho, continua no meu disco duro, só para mim.

Agora, tem duas coisas que vocês devem saber sobre este romance:

  • É sobre gente real, vidas reais, sonhos reais. A Síria real, diferente da Síria da mídia. É ficçāo mas possívelmente a ficçāo mais-pesquisada que você vai jamais ler (ouvir)
  • É uma história fantástica. (na minha humilde opiniāo ;) )

Amo contar histórias, nāo so escrevendo histórias mas também contando elas. Entāo decidi que vou fazer de Sonhos na Medina um podcast. Começando nesta próxima semana, vocês podem ouvir o conto, um pedacinho delicioso a cada vez. Também pretendo publicar como e-book e talvez publicar de verdade também. E… é em inglês E em português. Nāo é o máximo?

Eis um rascunho do resumo de capa. O que vocês acham? (Palpite realmente será bem-vindo…)

Escola, irmās, cozinha, limpeza… foram essas as atividades mais interessantes da infância de Leila numa vila em Dera’a, no sul da Síria. Ela cresceu com a expectativa de que seus pais um dia escolheriam um rapaz da vila para ela casar, o que definiria o resto de sua vida. Quando Leila foi concebida uma vaga para estudar literatura inglesa na Universidade de Damasco, tudo mudou. Um novo mundo se abriu para ela através da literatura que lia, e aí ela começou a fazer novas amizades. Rocsi, uma moça ígnea que se casou com um homem rico sem informar a família dela. Ruda, que estava pronta para sacrificar absolutamente tudo pela carreira. Maha, que parecia viver a vida perfeita. E Ahmed, que captou o coraçāo de Leila. Ao expandir do seu mundo, Leila começou a crer que ela, também pudesse escrever seu próprio destino.

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Eu sabia que você era ianque!

Esta é uma frase que realmente nāo quero ouvir, nunca. Duvido que muitos americanos expatriados desejam ser informados disso, jamais. Nāo só porque “ianque” é meio depreciativo, mas pois imediatamente evoca – pelo menos para mim – uma imagem de uma das facçōes na Guerra Civil americana. Imagino que seja melhor de que ser chamada de “dixie” (do lado que perdeu), mas prefiro evitar me posicionar em conflito sangrento algum.

Entāo, outro dia, na fila num supermercado, o homem na minha frente começou a puxar conversa comigo. Ele ou era bêbado, ou atrasado no desenvolvimento mesmo com sua idade avançada, ou tinha se embriagado demais numa vida anterior e sofrido danos ao cérebro como resultado. Nāo me pergunte exatamente como eu sabia desse fato, mas sabia – e nāo é eu tentando depreciá-lo, se você estivesse lá teria concluído a mesma coisa. Tinha algo no seu jeitinho, as perguntas inapropriadas que ele perguntava sem aparentar ter motivaçāo sinistra… Sei, sei… seria melhor eu “mostrar” pra vocês o que quero dizer ao invés de tentar explicar. Mas estou evitando. Prefiro nāo demonstrar pois a conversa nāo foi nada gostosa.

Mas entāo, ele me perguntou algo e eu respondi. Ele entāo respondeu, “Você é americana, nāo é?” Nāo querendo corrigí-lo com a nuança do meu histórico de vida, acenei que sim. E foi aí que ele declarou, “Eu sabia que você é ianque! Era óbvio pra mim quando você falou isso. Eu conheço os ianques.” Pois é. Isso me encorajou demais.

Ele continuou batendo papinho com um jeito amigável, tentando ser bonzinho. Tentando, mas sinto dizer que nāo conseguindo.

Continuamos nossa jornada até a caixa, pouco a pouco. Era um dia movimentado e ele deve ter sido quarto na fila, e eu quinto. Entāo tínhamos uma boa espera. Ele comprava uma seleçāo estranha de coisas: queijo, refri… e algo que ele agarrou às pressas e colocou na mochila antes de chegar no caixa. Acho que era um pacotinho de manteiga. Mas ele deixou os outros itens e pagou por eles.

Pois é, vi um furto.

Entāo eis minha pergunta para vocês londrinos que talvez estejam lendo isso: o que é que eu deveria ter feito? O cara certamente nāo estava certo na cabeça, e ele nāo estava captando meu coraçāo, e aí ele quebrou a lei. Qual teria sido a resposta certa?

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Adaptando a Londres – Desistindo, de certa forma. Capítulo 7

The back garden.

Hoje oficialmente decidi que vou desistir. Vi uma vizinha antando no jardim traseiro do prédio, uma que conheci uma vez. Ela era muito simpática e amigável, mas tipo bem-vinda-ao-prédio-tenho-que-ser-bonzinha. Nāo tipo eba-somos-vizinhas-e-entāo-talvez-amigas-para-sempre. E isso já faz mais que um mês. Desde entāo nāo falo outra vez com ela.

Acho que talvez estejamos, num nível subconsciente, nos ignorando, entāo hoje quando vi ela no jardim traseiro, me desisti. Meus vizinhos nāo vāo ser meus amigos. Isso é, para ser completamente honesta, culpa minha. Quando cheguei ao prédio, tinha idéias sobre fazer biscoitos ou bolo para todo mundo no prédio, ou planejar um churrasco comunitário, ou talvez bater em cada porta só para me apresentar.

Mas agora sei que sou tímida demais. Talvez eles também sejam. Duas das famílias do prédio tem filhos pequenininhos. Quando os conheci me ofereci a cuidar das crianças se eles precisarem algum dia. Elas fizeram cara de surpresa e me agradeceram. Sei que seu eu realmente tinha a intençāo de que eles aceitassem a oferta (que até que gostaria), eu teria que repitir várias vezes de uma dúzia de maneiras diferentes, aí procurar o momento em que elas estivessem bem estressadas e pular para salvar a pátria. Mas isso me parece ser uma estratégia tāo cansativa. Cuidar das crianças nāo parece ser cansativo, o esforço para conhecê-las o suficiente para ganhar a confiança delas para que eu possa ajudar com suas responsabilidades domésticas é o que me cansa só de pensar. Entāo estou desistindo.

Uma coisa que estou descobrindo é a facilidade pela qual posso desistir nāo tem nada a ver com raça, etnia ou nacionalidade. Você deve estar pensando que, claro que isso nāo é questāo de raça! Mas confesso que pensei que fosse. Afinal das contas, tantas pessoas vem a Londres, de cantos do mundo que sāo tāo hospitaleiros e abertos. Chegando aqui, eles ficam tāo fechados. Quietos, tímidos, sem muitos amigos e sem muito esforço para fazer amizades. Achei que era algo que aprendemos aqui.

Mas na semana passada conheci umas famílias que moram nos prédios vizinhos através da associaçāo da vizinhança. Elas eram possívelmente as mais inglesas brancas que encontrei desde que cheguei a Londres! Eles também eram bem simpáticos e amigáveis e pareciam ter compromisso a uma vida comunitária. Eles até que me convidaram a um jantar em grupo naquela noite, e acabaram de me conhecer. Infelizmente, eu já tinha planos, mas é isso que a comunidade deve fazer, nāo é?

Entāo por que será que nós imigrantes, nós as pessoas de fora nesta cultura, somos tāo tímidas e presas em casa? Achei que adotávamos a cultura do londrino, mas os natos parecem ser os amigáveis. Por que é que parece que perdemos todas nossas capacidades de hospitalidade, amizade, comunidade, ao nos mudarmos para cá? Para mim, pessoalmente, acho que é relacionado com as circunstâncas sob quais vim para cá – cheguei numa temporada de esgotamento e precisando descansar, o que necessitou uma boa porçāo de introversāo. Mas nāo quero aprender maus hábitos.

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Sírios que me inspiram – “Big” MP. Capítulo 6

Se perdeu meu último blog sobre uma mulher membro de parlamento, verifique aqui.

Outra MP me impressionou bastante durante essa oficina. A maioria das mulheres sírias que chegam a idade e maturidade suficiente para se considerar ter alcançado algum sucesso, geralmente sāo baixinhas e gordinhas, e me parece que todas usam saias pretas que chegam aos joelhos. Nāo me pergunte por que, mas se você imaginar uma mulher baixinha de saia reta preta e cabelos que chegam aos ombros (ou um pouco mais curtos), você provavelmente está imaginando uma mulhere síria da meia-idade. Ela pode ser dona de casa, ou talvez uma Membra de Parlamento.

Uma mulher no treinamento por mulheres membros de parlamento descaradamente desafiou o estereótipo. Ela nāo era nada baixinha. De fato era alta como modelo e sua figura era do tipo de um modelo que nāo se cuidava há algumas semanas: ainda em boa forma apesar de nāo perfeito. Seus cabelos tingidos loiros eram pendurados num rabo de cavalo apertado. Duvido que tenha sido mais jovem que as outras membras presentes, mas agia como se fosse. Embora todas as outras pareciam estar na casa dos 50, ela deu impressāo de ter pouco mais que 30.

Eu chamo dela de “Big” MP, pois ela tinha a mais bacana de todos os tremendos toques no seu telefone. Você conhece esta música?

Acho que foi um sucesso dos anos 90. Entāo… imagine se puder, você está numa oficina enfadonha para mulheres políticas numa sala com panos de mesa cor de laranja e cortinas escuras, se esforçando para se concentrar numa palestra sobre governança ou gerenciamento ou algo assim, e de repente você ouve essa música (pois é, sírios nunca eram muito de desligar o telefone em reuniōes. Uma vez fui ao cinema com uma amiga e o telefone dela tocou; ela atendeu, dizendo, várias vezes, ‘nāo posso falar, tou no cinema!’ E eu pensando que teria sido mais fácil se ela simplesmente nāo deixasse o telefone tocar. Ah, e o filme foi o Paixāo de Cristo – isso que é estragar a experiência!)

Enfim, quando essa música começa a tocar, nāo tem como você nāo se interessar mais no dono do telefone do que na oficina. Entāo além da sua aparência impactante, seu toque de telefone fez com que ela me fascinou a tal ponto que se acharia que eu estivesse apaixonada por ela (só que eu estava de olhos em um dos moços organizando o evento, mas essa é história para outro dia).

Entāo uma noite, nós todos nos reuníamos para sair pro jantar juntos. Há pouco na vida que é mais desajeitado do que sentar em poltronas rígidas numa sala com uma dúzia de mulheres robustas com ar de importância vestidas de saias pretas que chegavam ao joelho. Por meia-hora, esperando o resto do grupo chegar, sentamos quietas nos encarando uma à outra. “Big” MP era uma das atrasadas. Quando entrou, a sala já estava cheia, eu sentada num sofazinho para 2, do lado de uma outra MP. Ela nos viu sentadas lá e atravessou a sala, se plantando firmemente entre nós duas, como se ao fazer isso ela demonstrasse que ela, também, é moçinha magrinha e que todas nós cabíamos. Sorrimos uma para a outras, desconfortáveis, por um momento, aí, desesperada para ter algo em comum à base do qual poderia começar uma conversa, eu disse: “Gostei do toque do seu telefone!”

“Sério?” perguntou, animada. “Entāo eu transmito por seu telefone.”

“Tem como fazer isso?”, perguntei.

“Claro! Eu nāo sei como fazer, mas aposto que ele sabe! Rapazes sabem esse tipo de coisa.” E ela apontou para a única personagem masculina na sala (e sim, era aquele que eu estava gostando). E pois é que ele sabia fazer, e por anos, “Big” foi o toque do meu telefone. Adorava e o copiei a cada vez que comprasse um novo telefone. Além disso, no processo, gravei o número dela, com o nome de “Big MP”. Ah, como foi triste o dia em que meu telefone foi roubado! Sinto tanta falta do meu toque “Big”… devo tentar descobrir como fazer um download novo.

Entāo é isso, ela era única, e nāo conheço a história dela, mas gostei da idéia dela sentada naquela salona com o resto do parlamento.

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Sírios que me inspiram – Casamenteira MP. Capítulo 5

Devo avisar que os próximos dois blogs falam de políticos. Na Síria. Arriscado, heim. Mas nāo se preocupem pois nāo é de política que vou falar (pela maioria). Continuo por fora da política síria, mas até os políticos da Síria tem a capacidade de ser inspiraçāo para outros seres humanos. Essas mulheres certamente me inspiram.

À primeira política, dou o título de “Casamenteira MP”. Francamente nāo me recordo do nome dela: só nos conhecemos uma vez mas foi um encontro que me marcou profundamente. Nós duas estivemos participando de um treinamento de dois dias por mulheres membros de parlamento patrocinado pelas Naçōes Unidas.

Infelizmente, nem me lembro do assunto do treinamento: acho que tinha algo a ver com gerenciamento de projetos ou princípos de governança.

Mas me lembro que estávamos em uma grande sala de conferência com enormes mesas de mármore cobertas com panos cor de laranja, e cortinas marrom-escuro que cobriam o todo das duas paredes que tinham janelas. Como membro da equipe organizadora, consegui passar a maioria do meu tempo atrás com o cara do som, ou na cozinha com as cozinheiras. Essa salona escura e fria me dava sono.

Mas fiquei admirada com o quanto as trinta-e-pouco mulheres membros do parlamento que participaram, curtiam. Vi que elas floresciam por ter tempo juntas e que o assunto da oficina, seja o que fora, as interessavam muito. Sendo uma mulher política na Síria nāo pode ser fácil – a maioria delas eram as primeiras mulheres nos seus postes do parlamento, e nāo fiquei com a impressāo de que essas fossem suaves e influentes, nem que tivessem muito poder. Mas eram cidadās leais, e animadas para aprender capacidades que as ajudassem a fazer uma diferença nos seus carregos importantes.

No fim da oficina, ao invés de voltar para casa, fui à cidade mais próxima visitar uma amiga que morava lá na época. Um dos administradores percebeu que eu ia na mesma direçāo que uma das integrantes, entāo sugeriu que ela me desse carona. Grata, aceitei.

Andamos no assento traseiro do seu carro humilde, porém com motorista. No caminho, ela me perguntou a quem visitava, e lhe disse que era uma amiga americana que ensinava inglês. Ela perguntou se minha amiga professora de inglês era casada? Nāo. Tinha quantos anos? Falei a idade da minha amiga. Nada mais foi preciso para que essa membra de parlamento me desse seu cartāo de visitas, dizendo que tem um filho que seria perfeito pela minha amiga. Se ela se interessasse, poderia por favor ligar?

Devo dizer que essa senhora nāo tinha aparência nada tradicional. Vestia tailler azul marinho, de moda. Seu cabelo tinha um corte curto, bem escovado, com luzes loiras. E vestia óculos de aro de metal com uma corrente elegante. Mesmo assim, o fato de que eu tinha uma amiga na casa dos 20, morando na mesma cidade que o filho dela, era o suficiente para ela.

Aí ela me perguntou o que eu achava da Síria e falei para ela o quanto de adoro o país dela. E contei que depois de um mês estaria viajando aos Estados Unidos. Como ela bem sabia, americanos nāo tinham uma imagem muito boa da Síria (isso já faz uns 5 anos, mas parece que as coisas nāo mudaram muito); tinha alguma mensagem que ela gostaria que eu levasse para meus amigos lá na América? Eis o que disse: “Olhe ao redor. Você vê alguém dormindo nas ruas? Vê alguém morrendo de fome? Talvez nāo vivemos na liberdade aqui, mas cuidamos do nosso povo. O povo aqui nāo é desamparado, desabrigado e fomento. Você pode dizer a mesma coisa sobre a América?”

Como disse, isso já faz cinco anos, mas foi uma resposta esperta, nāo foi?

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Sírios que me inspiram… um capítulo

Estou determinada a nāo deixar a Síria escapar de minha vista. Estou a mantendo na minha consciência e no meu coraçāo. Me apaixonei por essa terra e deixei um bom pedaço do meu coraçāo lá. Nāo confio naquilo que vejo nas reportagens sobre a Síria, mas agora temo que as coisas sejam piores, nāo melhor, do que aquilo que a mídia sugere. Fui aconselhada a suspeitar de que, quando meus amigos me dizem estar bem, devo presumir mentira.

Quando comecei essa série-zinha de blog sobre sírios que me inspiram, fiz uma listinha longa de pessoas que queria apresentar aqui. Fico voltando a essa lista, tentando me decidir sobre quem escrever por próximo, mas repasso todos os nomes da lista e nāo posso decidir. Nāo consigo decidir porque todos parecem ser importantes demais, cada um merece seu clímax. Dei a certos deles a honra de ser entre os primeiros, mas agora quero honrar o resto. Nāo quero que sejam somente nomes ou continhos jogados em CulturLaçadas a algum momento de 2012. Sāo grandes e especiais demais para isso.

Vou parar com isso, vou sim. Vai ser melhor falar deles a algum momento do que me deixar esquecer deles.

Mas aqui, hoje, quero reflectir naquilo que me captou na Síria, as coisas pelas quais me apaixonei. Por que é que o povo daquele país me inspira tanto? Acho, talvez, que nāo sejam as coisas que você pense inicialmente sobre a Síria, mas sāo certamente verdadeiras.

…Sorrisos, inocência, braços abertos. Quando imagino as pessoas que conheci na Síria, vejo sorrisos tímidos. Meninas da minha idade, seus irmāos, esposos e pais, me convidando para seus lares – sejam casas ou sejam o lar da coraçāo, uma conversa profunda durante um breve encontro na rua. Eles olham para mim, a estrangeira, com curiosidade genuína. Penso naquela vez que um homem me pediu a māo em casamento, por erro, pois ele nāo sabia que eu era estrangeira (e casamentos entre sírios sāo de vez em quando concordados em esquinas de rua). Vi a vergonha profunda que ele sentiu quando percebeu que tinha me envergonhado. Aquilo que ele disse para mim era, sim, ofensivo, mas a emoçāo da retracçāo mais do que compensou. E penso nas dúzias, e dúzias, das vezes que sentei para tomar um copo de chá com uma estudante, com uma troca das perguntas mais banais: de onde você é? você tem irmāos? qual é seu sonho pela sua vida? Em cada uma dessas conversas, senti que olhando nos olhos dela eu já vi o coraçāo. Eles nāo me contaram cada detalhe de suas vidas, mas elas me deixaram ver aquilo que estava no mais profundo, muitas vezes quando ainda quase nāo nos conhecemos.

…Comida. Confesso que gosto muito de comida. Adoro comer e adoro sabores e adoro cozinhar. Passei a infância no Brasil onde a comida é fantástica. Lá, eu posso comer aproximadamente a mesma coisa todo dia e nunca cansar, apesar de amar uma variedade na minha dieta. A comida era simplesmente tremenda. Bem, descobri que a alegria da culinária síria facilmente pode competir com a do Brasil; na verdade, o Brasil adotou bastante da cozinha síria. Em uma ironia linda, aprendi que na síria existe, por aproximadamente, um relacionamento inverso entre o conservadorismo e o talento na cozinha. As mulheres das famílias mais conservadoras eram os verdadeiros mestres das especiarias. Até certo extento, até diria que os maiores as dificuldades que enfrentaram a vida de uma família, o mais rico que seria o repertório de comidas daquela família. Claro que sei que isso nāo pode ser realmente verdade, mas às vezes parecia ser, e isso, certamente, me deu muito para considerar.

…Herança, cultura, história. Antes de ira para a Síria, sempre morei em países onde os monumentos históricos tinham 100-150 anos. Cursos de história na escola falavam dos últimos dois séculos. Como resultado, eu nāo sabia nada da história antes que fui para a Síria. Lá, eu morei numa casa que só tinha 100 anos, mas que foi construída numa fundaçāo que tinha uns 6000 anos. Visitei cidades e casas de adoraçāo que floresceram uns 2000 anos atrás, e agora estavam desusadas. Mas às vezes o povo construía nas ruínas, e às vezes as preservavam no deserto, lugares lindos e isolados. Essa história rica imbuiu tudo sobre a vida na Síria. Na Síria, ninguém (além das autoridades na imigraçāo) se importavam com meu passaporte. Eles queriam saber da etnicidade do meu pai, e do pai dele, e do pai dele e do pai dele… o mais longe que eu poderia revocar. Na Síria, parece que pessoas muitas vezes sabem mais da história antiga do que da história moderna. Embora a história moderna também seja boa, aprendi muito dos laços e raízes profundos que eles tem com a antiguidade.

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