Lamento pela Cham

Com cada dia que passa, me sinto mais e mais longe da Síria. Mas continuo com amigos muito caros lá, e me sinto privilegiada em poder manter o contato com eles quase diariamente. Eles são tão amados, e são meus heróis. Mas aqui no conforto de Londres é difícil entender, de verdade, a realidade deles. Então talvez eu agora tenha distância o suficiente para começar a escrever um tributo aos sírios que continuam a me inspirar, mais e mais. Talvez o seguinte será o começo de um novo livro!

Leila pegou o telefone da mesa e procurou o nome da amiga com um número libanês. Pressionou o botão verde e bateu as unhas na mesa ao esperar.

Depois de quatro toques, Maha atendou, “Querida Leila! Como vai você? Senti saudades!”

“Eu também! Como vai?”

Mas ao invés de continuar com os cumprimentos típicos, Maha retornou com silênciou.

Então Leila foi falando. “Vi o seu post no Facebook. Que Deus tenha misericórdia nas almas deles.”

Maha deu uma risadinha. “Sabe o que encontraram no cascalho? A casa enteira destruida, mas o televisão continuou em pé com aquele doile bordado pela vovó em cima. Minha mãe sempre quis jogar aquela coisa fora por ser tão velho, e é a única coisa que sobreviveu!”

Leila participou com a Maha em alguns minutinhos de gargalhadas. O que mais pode fazer quando se fala com uma amiga cujo pai e irmão mais jovem foram mortos por um bombardeamento qualquer? Com essa pequena alegria passando, Leila começou a perguntar das coisas práticas: “E a sua mãe, vai fazer o que? E você vai voltar à Síria pro velório?”

“Ha tempos tento persuadir os meus pais a virem ficar no Líbano com a gente, desde o começo venho implorando. Mas a Mama realmente não quer sair. Diz que é a terra dela e se todos os cristãos fugirem da Síria, então bem que poderíamos simplesmente dar de presente pros islamistas. Então vai a Damasco ficar com a minha tia, você lembra dela? Graças a Deus, até agora, a região de Bab Touma em Damasco continua segura.”

“E você?”, incitou Leila.

“A Mama disse pra não vir, que é perigoso demais. Bobagem pois vou a Cham sempre com o Samir, mas parece que Sednaya agora é completamente fechada então não daria para voltar para casa mesmo. Imagina? Não vou nunca me despedir do Baba nem meu irmãozinho caçula. Ele estava pra começar o segundo grau, sabia?” Essas últimas palavras foram soltadas em golpinhos, como se a Maha estivesse se forçando a segurar as lágrimas.

“Ma sha’allah. Deus cria e é o homem que retira.”

Leila não havia escapado a perda por enteiro. Graças a Deus, sua família imediata estava segura, apesar de estarem morando num campo no deserto da Jordânia, em uns abrigos que pareciam contêiner de transporte, doados por uns homens de negócio ricos da península arábica. Pelo que todos sabiam, a aldéia deles nem existia mais, apesar de que há meses ninguém pôde transversar as várias frontes para visitar as terras deles. Dois dos seus tios e vários primos haviam se afiliado ao Exército Sírio Livre logos nos primeiros meses, e a maioria já foi morto no conflito. Porém, um dos seus primos havia se desempenhado bem, se mostrando ser um craque em guerra, e já era oficial do ESL. Leila insistiu em jamais falar com ele.

Tinha pouco mais a dizer sobre esse assunto difícil, então Leila perguntou, “Como vai Samir?”

Até de longe na linha telefônica, Leila tinha certeza de que senti a Maha se relaxando ao mudar de assunto. “O meu marido é incrível. É meu herói. Todos se preocupam comigo quando viajo – e bem que eu também sinto medo. Mas Samir, ele já foi detido várias vezes! Mas continua vindo e voltando entre Damasco e Beirute. Diz que não pode parar enquanto existem pessoas sem comida a comer. Está aqui em Beirute no momento, graças a Deus. Vou continuar viajando com ele, existem tantas mulheres em Cham que precisam de alguém para sentar com elas e ouví-las. E além disso, me assusto menos em viajar com o meu marido do que enviá-lo sozinho a um lugar perigoso. E, bem, ele tem razão. Não pode parar enquanto existe necissidade.”

“Então você quer dizer que ele é louco.”

“Quero dizer que ele é homem de Deus.”

Leila acenou com a cabeça e sorriu, aí considerou que Maha não podia ver os sorriso pela linha telefônica. Não queria que sua amiga entendesse mal, então repetiu a frase com a qual deu fim à maioria das conversas com Maha hoje em dias: “Vocês são demais.”

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Os Jogos Vorazes e a Síria

Nesse último final de semana, assisti o filme Os Jogos Vorazes. Sei que atrasei pra ver, mas sabia que seria muito intenso então queria estar bem preparada, e uma gripe das piores me pegou então tinha muito tempo para ficar deitada.

Hoje em dia, a maioria das coisas da minha vida me lembram da Síria, e isso inclui Os Jogos Vorazes.

Bem do começo, o filme capta um mundo em que a vida é uma luta constante. Difícil. Pesada. Absolutamente cansativa. As crianças são criadas com pouca esperança e muito medo. Vivem uma vida em que a verdade é que a sorte era “sempre no favor deles” – pois quase todas essas crianças iraiam sobreviver o medo e viver uma vida efadonha mas pacífica.

Sofro em pensar assim, mas confesso que isso me lembra a Síria de antes da crise. Não tinha muita esperança no país. Tinha bastante medo. Mas em geral, uma vida previsível e até contente era o futuro da maioria das crianças sírias.

Na “Colheita” anual, em que um menino e uma menina de cada “Distrito” seria escolhidos para representar o distrito nos “Jogos Vorazes” anuais, um evento em que jovens lutaria até a morte, apresentam um filme de propaganda militar. Esse filme serve para lembrar o povo que antigamente viviam em guerra e caos, mas agora vivem em paz, e que devem então sentir uma imensa gratidão às autoridades pela estabilidade que agora curtem. E, como resultado dessa gratidão, precisam sacrificar um menino e uma menina a esses jogos assassinos. A estabilidade que era a Síria por muitos anos também era uma troca: não questione e vivem em paz.

A essa altura do filme, comecei a sentir uma forte esperança que os jovens escolhidos, as personagens principal, desafiariam o status quo. E durante algumas cenas, parecia mesmo que serviriam como a inspiração de uma revolução em tais Distritos. Mas não aconteceu.

Não – quando os Jogos Vorazes começaram, as crianças aprenderam a lutar e a matar, e se tornaram brutais, crueis. O que me aquebrantou o coração, e até evocou lágrimas ao pensar na Síria, era o fato de que foram os adultos que inspiraram as crianças a serem malvadas. Os adultos os ensinaram a lutar e os lembraram que só poderiam ser vitoriosos se matassem outras crianças. Como pode a liderança de um país, ou até de uma milícia da oposição, preparar – intencionalmente – crianças a mutilar, assassinar e torturar?

Mas é isso que fazem. Eu nunca quis acreditar, mas fazem. A Síria não é o único lugar no mundo que já morei que tem crianças-soldados, mas é o único lugar em que eu conhecia essas crianças antes de se tornarem em soldados. Eu via que tinham promessa, potencial. Os vi dando risadinha, brincando nas ruas e abraçando as mães.

Em Jogos Vorazes, eu queria tanto que as crianças resistissem. Queria que os milhões de pessoas assistindo os jogos ficcionais na televisão tomassem inspiração das crianças que fizeram A Coisa Certa. Mas os concorrentes são, no final das hipoteses, crianças normais. E é difícil desafiar o poder.

Na Síria, tem possoas resistindo, lutando pela paz e contra a violência e trabalhando pela cooperação. Me sinto honrada em ter conhecido algumas dessas pessoas e sinto grande inspiração pela coragem delas. Mas são poucas, e o tsunami que resistem é enorme.

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Conhecendo Luto

Prezados amigos culturlaçantes,

Que vergonha, deixando passar mais de dois meses desde o meu último post em CulturLaçadas! Alguém tão viciada em escrever como eu não deve jamais deixar passar tanto tempo passar sem escrever nada, e não posso me chamar de blogueira sem fazer nada no mundo dos blogs.

Eis o resumo do meu silêncio:

Em julho, tinha bastante coisa me deixando nervosa: uma possível oferta de emprego, incerteza no meu emprego atual, política interna entre a equipe, e o transtorno típico da minha vida. E para ser sincera, estava curtindo bastante a vida em Istambul – cidade mágica!

Em agosto, pensei em atualizar Culturlaçadas, mas tinha uma emoção esquisita: Senti nem um tintinho de pouca vontade de escrever! Não queria escrever nada que não fosse necessário no trabalho.

Agora já chegando no final de setembro, o meu tema do mês é RESPIRE. Tem coisa demais acontecendo na minha vida agora, e tenho que me lembrar a respirar. Pensei que a minha saída da Turquia, e de trabalho em projetos da Síria me propulsionaria de volta a algum tipo de felicidade mono-cultural, sem graça nenhuma mas bem contente. Bem, não foi isso que aconteceu. Já culturlaçadora, sempre…

Neste mês comecei um emprego novo, continuei a fazer pesquisa sobre o Oriente Médio que requer chamadas pela skype com gente ainda bem no meio da crise, tratei de uma variedade de probleminhas pessoais, e – possível mais importante de tudo – tentei entender o que deve ser o meu relacionamento para com a Síria agora que não é mais meu emprego.

Durante o último ano, li alguns materiais variados sobre luto. Luto me descreve bem. Estou certamente de luto – mas luto pelo que? Estou lamentando a comida fantástica de Damasco, a hospitalidade célebre do povo sírio, e a vista da Monte Qasioun que é de tirar o fôlego?

Eis um vídeo de algumas das coisas que poderia estar lamentando:

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Ou será que estou sentino alguma vontande interna de entrar em luto em prol dos meus amigos, lamentando as casas deles, os empregos e as graduações das quais tiveram que desistir, e em alguns casos a perda de vidas amadas?

Ou será que é um sentimento de culpada de quem sobrevive? Estou de luto porque me sinto culpada que outros estejam passando por isso e eu não?

Ou será outra coisa que ainda não consigo resumir em palavras?

Bem, CulturLaçadas está de volta (apesar de que sem promessa de regularidade), e vai ser um pouco mais meditadivo por aqui. Estarei tentando entender o que quer dizer amar a uma cultura mas não fazer parte, amar um lugar de longe e testumunhar sua desintegração em cinzas, demonstrar carinho por amigos que vivem um pesadelo.

Obrigada por participar da jornada, Kati

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Hoje testemunhei uma briga, e isso me deu esperança

Hoje meu colega e eu finalmente nos aventuramos às famosas Ilhas Príncipe, uma saída perfeita da cidade num final de semana. Uma hora numa balsa nos levou para longe da cidade – só que ainda dava para vê-la de longe – e a uma praia de pedras, morros altos e a proibição de veículos motorizados. Fuimos à ilha #2 na rota da balsa: Burgazada. É 1.5 kms quadrados, uma parte coberta por uma antiga aldéia e o resto marcado por um enorme morro desolado que subimos. O dia ensolarados era um pouco cansativo, mas sem dúvida valeu a pena por poder escapar um pouco a intensidade da vida no centro de uma cidade de mais de 13 milhões de habitantes.

That's me climbing down the hill. Village at the bottom to the right. Istanbul across the water in the distance.

Sou eu descendo o morro. A aldéia fica abaixo à direita. Lá em frente, no outro lado da água, é Istambul.

Pegamos a balsa das 17:10 para voltar. Era uma hora preferida por muitos e o barco estava prestes a estourar com tanta humanidade o enchendo. Tivemos sorte em encontrar lugar para sentar, mas à custos de ter que sentar numa sala interior apesar do tempo estar lindo, e quase nem conseguir ver o Mar Marmara pelas janelas.

Justo quando partimos da última ilha na qual a balsa recebeu passageiros, antes de voltar à cidade, ouvi um movimento e levantei os olhos. Uma mulher de uns 40 anos estava irritadíssima com um homem que poderia ter uns 5 anos mais do que ela. Ela tinha um menino adolescente com ela, imagino ter sido filho dela, e ele segurava um curativo na bochecha. O homem estava com a família enteira, entre os familiares uma moça de uns 15 anos. Os dois gritavam, mais e mais alto. Não entendi nem uma palavra do turco louco que falavam, mas entendi muito bem a emoção.

O intensificar a briga, o menino tentou abraçar a mãe dele. Ela o largou e continuou brigando, ficando em pé e jogando as mãos pro ar. O menino também se levantou e sussurrou algo no ouvido dela, tentando acalmá-la com sua mão livre. Por um momento largou o curativo na bochecha e vi que algo ainda sangrava. Isso tinha algo a ver com a briga? Achamos improvável, imaginamos que brigavam sobre seus assentos num barco sobrecarregado.

A mãe dele não se consolava, e ela se aproximou um pouquinho do homem e levantou a voz mais ainda. Enquanto isso, a moça seguiu seu pai que se levantou e pegou os ombros dele nas mãos dela, delicadamente. Mas ele ignorou e jogou as mãos da filha pro ar. Os dois adultos se aproximavam. Parecia possível que estivessem prestes a bater um ao outro.

Mas o menino entrou em frente da mãe e não a deixou se aproximar mais do homem. A moça se pôs em frente do pai e não o deixou se aproximar mais da mulher. Depois de uns segundos, ela pegou o braço do pai e o puxou, levando ele a outra sala onde poderia se acalmar. O menino puxou a mãe para sentar com ele, e deitou a cabeça no ombro dela.

Briga nunca é agradável de se ver, mas fiquei animadíssima em testemunhar dois adolescentes confrontando seus pais em prol da paz. Passei um bom tempo ao longo da viagem de balsa ponderando se jovens em geral são mais pacíficos do que adultos, ou se essa nova geração que logo serão os adultos do Oriente Médio é uma geração que tem paixão pela paz.

E lembrei que não era essa a primeira vez desde que cheguei na Turquia em que testemunhei briga entre pessoas de cabelos grisalhos (ou quase), separados por alguém mais jovem. Me lembrei dos manifestantes jovens em Istambul que, pela maioria, insistem num ativismo não-violento. Meu colega e eu consideramos alguns motivos pelos quais era possível que uma geração esteja surgindo nesta região, que parece explodir com qualquer faisquinha. Seria a Internet que os deu outro meio de se expressar, ou seria a Globalização que ampliou sua educação a incluir outros diversos valores?

Não faço idéia se tais teorias tenham peso, mas a visão daquele menino persuadindo sua mãe a ser um pouco menos argumentativo, e daquela moça encorajando o pai a escolher a opção com menos confronto… isso vai permanecer parte da minha consciência. De tudo que vi nesses últimos meses, isso provavelmente é a maior fonte de esperança.

Straining over the heads of the other ferry passengers to get a shot of Istanbul (photo credit goes to the housemate - i wouldn't have even tried. But the setting sun is still lovely, eh?)

Na balsa lotada, tentando fotografar a cidade de longe acima das cabeças dos outros. (crédito ao meu colega – eu nem teria tentado. Mas a refleção do sol que se põe é linda, não é?)

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Solidariedade Turquia-Brasil: #OccupyGezi + #VemPraRua – Dois vídeos que refletem o espírito dos movimentos

Estou no momento morando na Turquia.

Passei a infânvia no Brasil.

De repente, esses dois paises estão entrelaçadas com algo profundo mas criativo: o povo se ergueu, agora neste mês de junho de 2013, para se expressar, com um paixão pela justiça, paz e solidariedade.

Aqui na Turquia, estive seguindo os eventos bem por perto. Vejo até da minha janela e bloguei sobre o que estou vendo aqui e aqui. Mas tive que pesquisar um pouco para entender o que está acontecendo no Brasil. Estou descobrindo marchas, ânimo, esperança para ver um mundo melhor, e imploros para serem ouvidos.

Os dois movimentos tem muito em comum, mas são também bem diferentes. Quero compartilhar com vocês dois vídeos semi-oficiais (não se podem ser oficiais pois são movimentos do POVO, não de alguma instituição organizada). Acho que representam bem o espírito daquilo que está acontecendo nos dois paises. E… relaxem e curtem, pois a música é boa mesmo!

Turquia:

Brasil:

 

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A cada poucos minutos um barulhão… o dia após a operação da polícia para esvaziar Parque Gezi

Estou morando atualmente no último piso de um prédio velho numa rua movimentada próximo à famosa avenida para pedestres, Istiklal Caddesi, bem perto da Praça Taksim. No último sábado a noite, meus companheiros de casa e eu sentamos na varanda, ouvindo os gritos alegres e vendo as lanternas comemorativas flutuando da Praça. Escrevi sobre a atmosfera linda que senti naquele lugar aqui.

Este sábado passamos a noite dentro do apartamento, sentados no sofá, com todas as janelas fechadas para nos proteger do doloroso gás lacrimogêneo, mas pulamos a cada barulho ou auge nos gritos para ver o movimento abaixo na rua. Pulamos frequentemente.

E agora é domingo de manhã e as ruas estão quietas. Na verdade já passou das 13:00 ao escrever isso, mas o movimento nas ruas é mais aquilo que se imagina de manhã cedinho depois do nascer do sol. Um carro ou outro, um pedestre ou dois, poucas lojas abertas. Parece que estamos todos esperandos, curiosos para ver o que possa estar por vir.

Ontem a noite fui à Praça Taksim para me encontrar com uns amigos para jantar. Vi famílias com criancinhas, turistas falando meia dúzia de idiomas diferentes, locais de Istambul curtindo o final de semana… o movimento típico de um bairro central. Tinha muita gente por aí e, apesar de estar próximo ao Parque Gezi onde tudo começou, não tinha como ver o parque por causas das multidões. Decidimos comer e depois visitar o Parque depois.

Olha, queriamos visitar o parque porque na sexta e também na quinta à noite um pianista alemão-italiano trouxe seu piano-forte à praça ao lado do parque e começou a tocar – literalmente. Milhares de protestadores e visitas quaisquers participaram com ele em canto, cantando sobre esperança e alegria. Ele tinha planos para voltar e queríamos ver ele.

Mas, saindo do restaurante, umas senhoras na rua nos avisaram que tinha problemas afrente. Começamos a caminhar rumo Praça Taksim para ver a qual tipo de problemas elas se referiam e, antes de ver qualquer eventualidade, vimos a cara das pessoas. Nada felizes. Muitos se distanciavam da Praça, querendo fugir da ação. Outros se aproximavam à Praça, determinados. Passamos rapazes com grandes caixas de máscaras cirurgicas e óculos de ski. Parece que estavam inicialmente à venda mas quando as coisas se intensivaram, começaram a dar de presente a todos. As multidões se fecharam, a mocidade começou a bater em grades de metal para comunicar a urgência que sentiram. O rosto de uma moça tinha algum creme para aliviar a dor do gás que ela acabara de ingerir. Um moço levantou a camisa para tratar de uma corte nas costas. Sentimos no ar: essa não era uma noite feliz.

Finalmente, decidimos que já havíamos nos aproximado demais da tensão e partimos por meio de uma ruazinha lateral. Nessas ruazinhas era difícil até imaginar que tinha algo acontecendo: os barzinhos e restaurantes todos abertos e cheios de clientela. Meus amigos me fizeram o favor de me acompanhar até a casa e eu os convidei a ficar comigo se enfrentassem alguma dificuldade em voltar à casa deles. Felizmente, eles não enfrentaram mais problemas, mas imagino que se esperássem mais meia hora teriam.

Chegando em casa me instalei logo em frente à televisão. Assisti ao vivo a avenida Istiklal Cadessi, onde caminhava havia somente 15 minutos anteriores, foi ocupado pela polícia. As multidões agora corriam, a rua coberta com água das canhões de água que a polícia usava para forçar o povo a se retirar, e nuvens de gás lacrimogêneo criou um ar etéreo sobre a rua.

Mais quinze minutos passaram até começarem os gritos na nossa rua. Pulamos e vemos pela janela, jovens se reunindo na rua. Mais uns minutos e vimos uma torrente de mocidade correndo, fugindo a gás em Istiklal. Mais alguns minutos e ouvimos o que parecia um tiro. Não era arma, só o ruido de uma bolinha de gás. Mas estrondos indicavam mais conflito, mas felizmente a nenhuma vez foi usado uma arma letal. Depois no Twitter descobri que os estrondos eram nada mais que sons produzidos justamente para nos assustar. (Aliás, o piano de Davide Martellow foi confiscado quando ele estava a caminho do Parque ontem.)

Tenho grande simpatia pelos protestadores pois se organizaram tão bem, por terem um compromisso tão grande e sim porque são tão bem-educados. Essas imagens dão uma idéia de como é tão fácil gostar deles.

E também, é tão difícil para mim entender a resposta que receberam. Em casa surfando as redes sociais, comecei a juntar as peças. Já na hora em que passei por Taksim mais cedo, às 20hs, a polícia já se juntava. Às 21hs, ou seja, na hora em que o sol se pôs, a polícia entrou no parque. Conflitos entre polícia e protestadores já vinham acontecendo ao longo da semana, mas eles deixavam o parque, no qual os protestadores mais comprometidos haviam se instalados numa cidadezinha de barracas, em paz. O governo disse que deviam sair até domingo mas responderam que não iriam sair. Então às 21hs no sábado (sim, um dia antes do ultimato), a polícia, armada com capacetes e máscaras para gás e escudos entraram com força no parque. Os protestadores, a maioria dos quais são ambientalistas radicais, não tinham máscaras para se protegerem do gás. O parque se encheu de gás e os protestadores fugiram. Deixaram as barracas, sua biblioteca, sua clínica médica, tudo por trás. E a polícia autorizou a uma equipe de escavadeiras e limpadores de rua a entrarem. Eles passaram 12 horas tirando as barracas e limpando as pichações e fazendo o parque voltar a parecer que nunca aconteceu nada. Vi fotos do parque hoje de manhã – civis não podem entrar na praça hoje – e é mesmo lindo.

Mas os protestadores não voltaram para casa. Se juntaram nas ruas laterais e logo vieram mais uns milhares de pessoal para participar com eles em solidariedade. E foi aí que os ataques verdadeiros começaram, e foi essa tensão que alcançou à mina rua. E um dos momentos mais extraordinários foi quando milhares de protestadores começaram a vir, à pé, do lado asiático ao lado européu, onde o parque/praça se localizam. A polícia os bloquearam então eles deitaram no meio da ponte em paz, determinados.

Mas, terminando o meu conto, a coisa que mais me horrorizou disso tudo foi recordar que às 20hs a Praça estava cheia de famílias, pais com filhos em carrinhos, criancinhas correndo por aí. E foi mesmo que quando a ação da polícia começou, muitas famílias foram separadas. Dúzias de crianças se perderam ou tiveram dificuldade encontrando os pais.

Então, num ato lindo de solidariedade, um hotel próximo se tornou o “perdido-achado” para crianças, e também abriu as portas para pessoas feridas.

Bem, eis o qua aconteceu no lobby do hotel:

Esta é uma das fotos mais benignas que vi da entrada deste hotel. A polícia tentou entrar e protestadores formaram uma corrente humana e cantou o hino nacional turco para evitar com que entrassem, mas eventualmente foi rompido e, sim, a polícia encheu o lobby com gás. E repetiram várias vezes. O lobbe de um hotel que providenciou um refúgio para crianças perdidas e os feridos.

Creio que qualquer conflito tem dois lados, mas neste caso está sendo difícil ver a perspectiva do outro lado…

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Um blog em fotos do #OcupeGezi na Praça Taksim em Istambul

Estou morando no mesmo bairro-em-que-tudo-começou aqui na Turquia. Se você ainda não viu nas notícias, coisas incríveis vem acontecendo na Turquia hoje em dia! No último final de semana, protestos ambientalistas foram repelidos com violência pela polícia que resultou num tumulto enorme. Eu estava na Jordânia naqueles dias, então não pude participar nas diversões – ou seja, a tortura por gás lacrimogêneo que imagino que encheu a bairro enteiro. Mas entre sábado a noite e domingo de manhã, a polícia se retirou e deixou os protestadores ficarem com a praça. A essa altura, já ultrapassavam das centenas de milhares de protestadores, e eles haviam derrubado cercas e carros criando barricadas para proibir com que os policiais entrassem na praça. Livres da ameaça imediata, os protestadores se instalaram. Quando cheguei em casa na sexta à noite, a praça já havia sido transformada numa cidade de tendas combinado com festa de rua, que me parecia muito com as histórias que ouvi dizer sobre Woodstock.

Isso é grande. Se você não prestou atenção até hoje, recomendo que comece a seguir as notícias daqui. Não é pouca coisa quando a polícia se retira, admitindo [provisoriamente] a derrota a protestadores que agora controlam o coração da cidade. A Praça e o Parque estão sendo muito bem gerenciados, os protestos continuam pacificamente, grupos políticos continuam ativos… mas não existe nenhum líder específico. Nuca se viu um movimento tão ‘popular’ como esse, pelo menos que eu saiba. A minha suspeita é que o resultado será uma de duas coisas: ou isso vai transformar o país enteiro, e possivelmente outros paises também; ou os protestadores relaxarão e a polícia tirará vantagem naquele dia. Muitos de nós queremos o primeiro, simplemente porque o ânimo e a alegria e a esperança é contagiosa.

Chega com minhas teorias. Quero compartilhar com vocês algumas das fotos que tirei ao caminhar pela praça. Ninguém reclama de fotos, e não existe regulamento oficial nenhum. Mas quando tentei tirar uma foto de uma clínica médica que se instalou, brilharam uma luz forte nos meus olhos para que a máquina fotográfica não funcionasse e pediram que parasse. Mas fora isso, tudo vale…

    Boys waving flags on an overturned car at midnight. There was much about the Square that reminded me of a scene from Les Mis...

Meninos com bandeiras num carro virado ponta-cabeça, à meia-noite. Muito daquilo que vi na praça me lembrou uma cena de Les Miseráveis…

A barricade blocking access to the square from the Northern End. I live at the Southern End, down a pedestrian-only street, which is currently entirely occupied by protestors - it's weird how all the police have disappeared.

Uma barricada bloqueando acesso à praça do lado Norte. Moro no lado sul, à beira de uma rua que á somente para pedestres, e o meu lado é atualmente 100% ocupado por protestadores – é esquisito como todos os carros e toda a polícia sumiu!

There is LOADS of patriotic bling for sale. In fact, not just bling... there is loads of all kinds of stuff for sale!

Existe um montão de  bujiganga patriótica à venda. E não só coisas patrióticas – também outras coisas como bolsas e sapatos à venda!

As I approached the Square yesterday afternoon, a huge cloud of smoke covered the entire area. Last weekend the police used a horrific amount of tear gas, so I had a brief moment of panic that the fighting had resumed. But as I approached, the lovely smell of barbecuing meat wafted over me. Carts like this are dotted all throughout the Square.

Ao me aproximar da Praça ontem à tarde, uma nuvem enorme de fumaça cobriu o espaço todo. No último final de semana, a polícia usou uma quantia horrorífica de gás lacrimogêneo, então passei por um breve momento de pânico que a violência havia recomeçado. Mas ao me aproximar, foi o lindo cheiro de churrasco que me encontrou. Carrinhos como esse se encontram pela praça enteira.

One of the first things that impressed me as I wandered around the Square (especially inside the park, where all the tents are set up - which I did not take a picture of, sorry) was how CLEAN it is. I asked and was told that it's the protestors themselves who have set up a trash pick-up rota and, sure enough, I saw a young well-dressed girl with a designer purse throw a bag on this pile at the edge of the Square.

Uma das primeiras coisas que me impressionou ao caminhar pela Praçca (especialmente dentro do parque, onde os protestadores estão morando em barracas – infelizmente disso não tirei foto) foi como é LIMPO. Perguntei como se fazia a limpeza e me informaram que são os próprios protestadores que instalaram um rota de limpeza. E logo depois vi uma moça bem-vestida, com bolsa chique, jogar um saco de lixo nesta pilha à beira da Praça.

A few things to note here: 1- The huge protests broke out because of construction being done in the Square which would entail destroying the park (which extends behind the bulldozers for several acres) so please note that the bulldozers have been DE-activated. 2- Graffitti, Graffitti everywhere! And not just in the park where the protests happened - this volume of graffitti has filled the entire neighbourhood. 3- There's a kid playing in the bulldozer. This is ALL fun now...

Algumas observações: 1- Os maiores protestos começaram por causa de construção na Praça que resultariam na destruição do Parque (que estende por uma boa distância atrás das escavadeiras nesta foto então é bom reparar que as escavadeiras foram DE-ativadas. 2- Tudo, tudo coberto por pichação. E isso não é só no parque onde os protestos se centralizaram – o bairro enteiro está completamente coberto por pichações. 3- Um rapaz brincando na escavadeira (opa, não inclui a foto com o menino brincando – mas pode crer que estava, e não foi só um menino). Isso agora é TUDO diversão…

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Como pode a humanidade…?

Estava agora lendo meu feed de twitter e fiquei sabendo sobre um atentado em Benghazi hoje. Para ser exato, num hospital em Benghazi. Estão avisando que pelo menos 2 crianças perderam as vidas.

Mas é difícil para mim reagir com o nível de intensidade que uma notícia como essa merece, pois há somente dois dias, dois carros-bombas explodiram em Reyhanli, no Sul da Turquia. Conheço gente há poucos quilômetros dalí. Hoje falei com uma amiga que mora perto de lá e eu lhe disse, “Dou graças a Deus que não atingiu sua cidade.” E ela respondeu: “O que importa! Gente faleceu!” E ela tem razão. Mas mesmo assim, fiquei aliviada que essa gente não incluiu ninguém da família dela…

Mas até isso nem se compara com outra notícia que vi hoje: a taxa de mortalidade na Síria agora já ultrapassou de 80,000. O número de refugiados que fugiram do país é tão grande que já perdi a conta, mas posso dizer que quase 1 em cada 3 pessoas já fugiu da sua casa. Isso inclue quase todos os meus amigos lá. Dou graças a Deus que os 82,000 mortos não conta com nenhum dos meus amigos, mas me dá tremores em pensar como a morte já os aproximou de tão perto.

E começo a ponderar: Quem é essa gente? Quem faria isso!

Nenhum dos meus amigos tem sede de ver sangue; todos os meus amigos estão lutando para sobreviver, e se sacrificando para ajudar outros a sobreviverem.

E não quero conhecer essa gente. Estou contente em saber que meus amigos não constam entre eles.

Mas encaro essas notícias como se fosse um cachorro com um carro prestes a me bater. Chocada, aterrorizada, e completamente insegura de o que devo fazer. Como pode alguém tirar a vida de outro, com tanta facilidade? Que tipo de ser humano pega uma arma na mão e a aponta na cara de outro ser humano? Cadê a alma de uma pessoa que enche um carro de explosivos e aí se encaminha para longe, para assistir a carnificina que segue?

Aí vou ao serviço, onde todos nós estamos trabalhando duro para tentar ajudar a minimizar o sofrimento humano que é resultado inevitável de toda essa violência, e jogamos com política interna, fofocamos um sobre o outro, reclamamos do emprego. Tudo bem que não causemos danos físicos um ao outro, mas também não criamos nenhum refúgio para nos proteger da dor que nos cerca. Talvez façamos isso de propósito: Preferimos sentir um pouco de dor a sentir culpados que estamos seguros e contentes enquanto as pessoas que servimos estejam sofrendo tanto.

Mas no fim do dia, vejo os tweets com notícias de alta-moda, fofoca de celebridades, nova arte nas galerias das grandes cidades ocidentais, e quero escapar a esse mundo. Quero fingir que o sofrimento não existe. Não quero nem saber quem é essa gente. Porque se eu algum dia ficar cara-a-cara com um deles, o que poderei dizer? Se um combatente sírio, não importa qual seu lado, entrasse na minha sala de estar agora mesmo, o que poderia eu dizer? Se o bombardeiro de Benghazi ou Reyhanli fosse se assentar na cadeira aqui na minha frente, nem imagino o que eu diria?

Existe algo, qualquer coisa, que ele/a poderia dizer que me convenceria de que ele/a é mesmo um ser humano?

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as ironias

Você sabia que eu sai de Cairo no dia antes dos famosos protestos da Primavera Árabe começaram lá? Participei de uma conferência lá e estava hospedada num hotel no centro da cidade – bem onde os protestos estavam prestes a dar início. Aí voltei para morar em Cairo alguns meses depois para ajudar a planejar umas programas de desenvolvimento pós-revolução. Fiquei lá durante 4 meses, e os protestos eram, ao mínimo, semanais.

Apesar de estar hospedada bem na vizinhança da Praça Tahrir, centro da ação, eu estava hospedada segura num hotel cinco estrelas climatizado com janelas que não tinham porque abrir. E assim, muitas vezes no dia após protestos, um colega que morava num apartamento de gente normal, bem na avenida principal, chegava no escritório reclamando de como o seu apartamento havia enchido de gás lacrimogêneo durante a maior parte do dia. Senti certa simpatia por ele, pois era óbvio que ele havia passado um dia miserável enquanto eu curtia o Spa no meu hotel. Mas também senti um pouco de inveja, curiosa para saber como seria estar testemunhando eventos históricos.

Também me encontrei em Khartoum, Sudão durante alguns dos protestos mais intensos do ano passado, mas era esperta: sabia que não devia sair da casa. Ficar em casa me entediava, mas sabia que estava em segurança. E pensando mais no meu passado, me recordo de que estava no Líbano uma semana antes do começo da guerra de 2006, e também estava no Oriente Médio durante a Intifada palestina e o início da guerra no Iraque – ambos eventos históricos que inspiraram milhares a sairem às ruas. Então… já me aproximei de perigo muitas ezes na minha vida, mas sempre estive longe o suficiente para evitar qualquer perigo. Até esta semana agora, passei bem perto da fronteira da Síria. Isso aí… da SÍRIA, uma fronteira bem insegura que vivenciou bastante violência nesta semana que passou. Mas eu estava numa aldéia pacífica há alguns quilômetros de distância curtindo a hospitalidade do povo lá e trabalhando duro no computador e em reuniões.

Então achei muita ironia em voltar a Istanbul numa sexta-feira ensolarada com um leve ventinho soprando pela cidade, e entrei direto no ramo de gás lacrimogêneo. Agora que passou, posso dizer com certo orgulho que já tive a experiência política de sofrer ataque de gás. Mas naquele momento, senti que estava passando pela dor mais excruciante imaginável. Cada tantinho do meu corpo ardia, quase não conseguia respirar, um cheiro podre me cercava e não consegui evitar nem com a toalha que segurei para proteger o nariz e a boca, e meus olhos lacrimejavam – o que os fazia doer mais e me deram suco de limão para passar nos olhos pois isso doía MENOS! Saiba que gás lacrimogêno é absolutamente inhumano.

Uma docura de lojista me convidou para esperar na sua lojinha arcondicionada para esperar passar, pois andar na rua era fora da questão. Com lágrimas – chorando de verdade não somente como resultado do gás – nos olhos, ela lamentou os eventos que resultaram em um bairro enteiro ser pulverizado com gás. E este é um bairro que, numa tarde de sexta, tinha centenas ou até milhares de turistas perambolando nas ruas! Pediu desculpas repetidamente e profundamente pelo seu país. E assim me apaixonei mais ainda pelo país dela.

Ao ficar seguro outra vez para sair, voltei para casa, passando uns 200 soldados subindo a rua do meu apartamento, alguns ainda carregando botijões. Ponderei o que poderia estar passando pelas cabeças deles e o que diriam às suas mães na próxima visita a casa. Tinham orgulho de ter causado tanta dor? Estavam irritados com os protestadores que os instigaram? Tinham raiva por ter sido recrutados num exército que os pediam a atacar civis? Eram tão jovens, provalvemente ainda na adolescência, e conheciam tão pouco deste mundo.

Bem, por motivos que acho que devem ser óbvios, não tirei foto nenhuma durante o gás nem depois, mas logo tive outra experiência que era bem fascinante então vou fechar este post com umas fotos… Como você talvez já esteja sabanedo, Istanbul tem a honra de transbordar dois continentes. Tem como atravessar da Europa à Ásia e aí voltar de balde, custa menos de 2 reais e demora uns 15 minutos. Muita gente faz isso como parte da sua viagem diária para trabalharo. Eu estou morando na Europa mas ontem atravessei à Ásia para visitar uns amigos. Enquanto lá, uma névoa enorme entrou – meus amigos disseram que era um evento raro. Passou rápido no lado asiático, mas pousou no lado europeu, cobrindo por exato os portos dos baldes. Então todos os baldes pararam até passar, o que acabou demorando quase o dia enteiro. Eu estava presa na Ásia! Depois de algumas horas, desisti e voltei de ônibus, o que foi uma rota longa e bem indireta passando por uma ponte enorme um pouco mais além no rio (e a ponte só tem uns 30 anos, antes disso para passar da Europa à Ásia era balde ou nada!). Mas o pessoa local me informaram que eventos como este são bem raros em Istanbul. Baldes são raramente cancelados, e névoa deste tipo específico quase nunca aparece. Então tirei umas fotinhos 🙂

I took this from the Asia side, looking at the Europe side. It was a gorgeous day on the Asia banks of the Bosphorous. But the European riverbank was a big mass of cloud.

Essa tirei do lado asiático, olhando ao lado europeu (pode QUASE ver os prédios do outro lado). Era uma dia magnífico na margem do rio na Ásia, mas a margem na Europa era uma grande massa de nuvem.

I took this photo when I FINALLY got home 5 hours later, from my flat which is high up a hill, ABOVE the cloud

Tirei essa quando FINALMENTE cheguei em casa depois de umas 5 horas, do meu apartamento que fica no alto de um morro, ACIMA da nuvem

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Para onde será que sumiu a Kati Woronka?

Pois não, ela está num café charmoso em uma das mais – talvez A MAIS – mágica das cidades do mundo. Não era de se esperar?

A maioria das pessoas que lêem meu blog são amigos e seguem meus movimentos no Facebook, Twitter, email, ou talvez através de conversa normal como gente normal faz [fazia]. Então já sabem que, no mês passado, viajei muito.

Mas para os poucos que só me conhecem através de CulturLaçcadas, deixem-me resumir o mês+ desde o meu último post: entrevista de 2 dias por um emprego em uma das minhas muitas cidades prediletas e apesar de não conseguir o emprego pude passar um tempinho com minha afilhada… uma semana de reuniões na periferia de Istanbul Turquia… outra semana de reuniões em Colorado Springs EUA… três festas de tabouli para comemorar meu romance Sonhando na Medina e para conscientização sobre a Síria em Maryland e Virginia EUA… diversão com os sobrinhos… passada apressada por Londres para desfazer e refazer as malas… e de volta a Istanbul Turquia onde estarei morando durante os próximos 4-6 meses. As coisas mudam rápido. Parte disso tudo já foi confirmado há meses, mas outra parte surgiu de última hora. Como por exemplo essa coisa de me mudar para a Turquia. Não era o plano, mas como é que se diz não a Istanbul?

the café where I'm currently sitting. Will I bond with the owners of this one, or go to a different one each day? I don't know - there's so much charm to choose from!

o café no qual estou sentada neste momento. Tentando decidir se vou tentar formar amizade com os donos aqui, ou visitar outro café cada dia? Não sei não – existe tantas charmes das quais escolher!

Se você fosse oferecido um emprego e um requisito era assistar seus programas favoritos de TV o dia todo e ainda assim receber salário… ou se um requisito fosse andar o dia todo no veículo dos seus sonhos e ainda assim receber… ou comer as comidas mais deliciosas ao longo do dia e ainda assim receber… seria difícil dizer não, heim?

Bem, foi basicamente isso que aconteceu. Há tempos o Istanbul é uma das minhas cidades prediletas neste grande mundo. A comida aqui é tremenda. O idioma turco é como música nos meus ouvidos (apesar de que seria legal entender um pouquinho). A arquitetura é como docinho pros meus olhos, mas as casas antigas e lindas não são nada em comparação com as vistas do mar e os monumentos históricos do outro lado do rio. Tudo bem, admito que não fui contratada para morar em Istanbul. Mas o meu emprego me trouxe a Istanbul e por isso sou grata.

Mas para ser completamente honesta, provavelmente aceitaria esse emprego mesmo se viesse com o requisito de morar num campo de refugiados no meio do deserto por 4-6 meses. Estou apoiando projetos em 4 paises do Oriente Médio que tem como objetivo preservar as vidas e restaurar a dignidade de sírios, tantos refugiados sírios em paises vizinhos quanto sírios que continuam lutando para sobreviver dentro do seu país. Você já deve saber que a Síria é muito amado para mim e os eventos recentes vem quebrantando meu coração. Então estou mais que animada em ter uma oportunidade para ajudar de maneira pequena. O trabalho já é duro, e sei que vai ficar mais difícil, mas tenho a esperança de que as vidas de algumas pessoas melhorem como resultado.

A única desvantagem disso tudo é que meus amigos CulturLaçantes talvez repararam que falo muito sobre me mudar a Londres, me instalar, aprendar a ser mais estável. Bem, este poste não vai ajudar com isso. Acho que é prejuizo. Isso me entristece, mas a tristeza não é tão grande que negaria a chance de fazer algo pelo qual tenho muita paixão e ainda enquanto morando numa cidade tão fascinante. E essa mudança não é permanente, é só por alguns meses.

the view from my office as the sun set

the view from my office as the sun set

Então, depois de um intervalo não-marcado, CulturLaçadas voltou, mas sem compromisso de regularidade. Talvez eu poste aqui sobre as festas de tabouli e outras novidades interessantes com Sonhando na Medina. Provavelmente vou tentar apresentar Istanbul aos leitores de CulturLaçadas com a esperança de que vocês também se apaixonem por esta cidade e marquem uma visita. Se eu conseguir começar com o aprendizado da língua turca imagino que tenha uns errinhos gozadinhos para contar. E imagino que comentário sobre a Síria continua inevitável. E, como sempre, quero comemorar a diversidade e as alegrias em conhecer gente diferente, aprender a entender as realidades dos outros… pois é, continuo a amar a CulturLaçar.

p.s. se você usar Google Reader e estiver a procura de alternativa, achei bom mencionar que já migrei a Feedly e estou adorando. E importa tudo direitinho então quase nem perdi tempo com essa grande perda! E sim, provavelmente continuo lendo o seu blog mesmo sem falar muito.

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