Um fato sobre a Síria: pessoas lá podem consertar TUDO. Quando morei na Medina, as dependências da Universidade de Damasco, usamos bico eléctricos e de gás para cozinhar. Essas bolotas eram criados para uso ocasional, mas nós nāo as usamos ocasionalmente. Dependemos delas para dúzias e dúzias de copos de chá ao longo do dia, e também para preparar nossas refeiçōes. E adoramos cozinhar comidas elaboradas.
Entāo esses biquinis quebravam…sempre… Um bico novo só custavam cerca de R$2-4, mas minhas companheiras de quarto nāo tinham condiçōes de pagar isso, e eu nā era muito mais rica que elas. Mas fiquem sossegados. Minhas companheiras de quarto sempre sabiam consertar. Nāo importava o quanto estava queimada a corda, o quanto que vazava gás, a porçāo da tomada que havia quebrada dentro da parede… podia ser consertado.
Minhas companheiras nāo eram sírias, eram da Armênia, entāo isso talvez nāo comunique muito sobre a Síria. Mas e os carros. Carros sírios confirmavam que essa mentalidade conserta-tudo é algo que os sírios tem em comum. As táxis sírias eram, até uns 3-4 anos atrás, antigos carros que sentavam seis pessoas, 3 em frente e 3 atrás. Os carros privados nāo eram muito mais novos. Um amigo meu comprou um Range Rover do ano 1975, mas me disse que ele nāo conseguia descobrir qual, se algum, das suas partes se redatavam a 1975. Tudo
havia sido consertado e/ou reposto, pelo menos uma vez. Durante três décadas, as regras de importaçāo/exportaçāo da Síria eram rígidas demais para permitir que muitas pessoas comprassem carros novos, e nāo existia indústria de carros local. Entāo, ou consertava, ou ficava sem.
Tenho uma família adoptiva na Síria, uma māe, um pai, irmāos, sobrinhos e tudo. Um dos meus irmāos adoptivos fez uma carreira de consertar coisas. E ele é bom, muito bom. Uma vez, querendo agradecer uma amiga minha que me hospedou durante muitos meses, levei ele lá para a casa dela e nós instalamos um sistema de televisāo parabólica novo. Tudo na casa deles funciona. Talvez nāo seja muito lindo, nem de luxo, mas tudo funciona.
Devo mencionar que meu irmāo ‘de verdade’ e meu pai ‘de verdade’ também sāo muito capazes em termos de consertar coisas. Mas sírios como meu irmāo adoptivo se investem em projectos que os outros achariam ser além de causa perdida. E eles nāo acham nada demais. Suspeito que exista uma conexāo entre privaçāo económica e engenho… já que eles nāo tinha como acessar produtos importados de qualidade e nāo tinham recursos para comprar muitas coisas novas, os meus amigos na Síria tinha que escolher entre consertar, ou ficar sem. Minhas companheiras arménias foram criadas em época de comunismo, e o mesmo princípio aplicava. Talvez devamos todos morar alguns anos em tais circunstâncias, se o resultado for que aprendamos a ser mais como o irmāo conserta-tudo!
(Eu nāo diria que virei craque dessas coisas durante meu tempo na Síria, mas fico contente em poder anunciar que consertei meu próprio vaso sanitário na semana passada! EBAA!)









